"Grandeza e Glória nos Letreiros de Teresina", por H. Dobal
Uma vez, um viajante ilustre e mal-humorado (mais mal-humorado do que ilustre) achou que essa cidade era uma aldeia grande. O curso do tempo não fez dela uma cidade grande, embora não lhe faltem os indicadores de grandeza das cidades — as clínicas médicas, as escolas particulares, os motéis. O tempo, o aumento da população e o desenvolvimento do comércio há muito sufocaram o que nela havia de aldeia.
Hoje é só uma lembrança o tempo em que o Dr. Martins Teixeira, usando uma senha solene — Imprensa Local e com a autoridade de Presidente de uma fictícia Associação de Jornalistas, levando a família, entrava sem pagar nos pequenos circos-teatro que periodicamente passavam pela cidade.
Esses circos eram em si mesmos um espetáculo para a cidade carente de diversões. De tarde, escanchado, de costas para frente, num jumento em pêlo, que um menino puxava pelo cabresto, saía um palhaço fazendo a propaganda do espetáculo que, invariavelmente, terminava com um “drama religioso em três atos, dedicado às excelentíssimas famílias católicas da cidade, sem alteração nas piadas e anedotas”.
À noite, as piadas e anedotas eram “alteradas” pesada e até grosseiramente. Apesar disso, ou talvez mesmo por causa disso, a assistência era numerosa e o distinto público ria ruidosamente, isto é, quem ria era o povão do “galinheiro”, porque as pessoas da “sociedade” que ficavam em cadeiras perto do picadeiro, disfarçavam o riso. Alvorada Mendes, filha de um desembargador ateu e maçom — estudante do Colégio das Irmãs, ria discretamente, escondendo o riso com leque.
Aliás, ela não entendia todo o alcance das piadas, em parte por inexperiência e em parte porque fora dotada de inteligência abaixo da média. Já o Dr. Martins Teixeira (que Deus o tenha) não ria nunca.
Achava escandalosas as piadas, um atentado contra o decoro das famílias.
O crescimento da população aumentou o estranhamento das pessoas e o desenvolvimento do comércio é um dos mistérios da cidade.
Felizmente, não é um mistério doloroso e, infelizmente, não é um mistério gozoso.
Uma arquitetura corrompida desfigura o centro da cidade, onde antigas residências familiares remendadas, mal adaptadas como lojas, principalmente pequenas lojas dos bairros, proclamam uma grandeza que só existe na fantasia explícita. A cidade não tem mais açougues. Todos são frigoríficos, por menores que sejam e tenham ou não aparelho de refrigeração. Todas as farmácias se transformaram em drogarias; as padarias são confeitarias ou panificadoras.
H. Dobal, em
Pulsar. Anos 5 e 6, n. 5, 2002–2003.
(A revista Pulsar foi uma publicação cultural de Teresina editada entre 1998 e 2003, voltada à literatura, artes visuais, teatro e cultura piauiense)
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