"Parque Piauí: moradia, cultura e luta urbana na Zona Sul de Teresina"
A história do Parque Piauí pode ser compreendida a partir de três processos articulados. O primeiro é urbano. O bairro nasceu como conjunto habitacional estatal, implantado na periferia sul de Teresina em um contexto de crescimento populacional, migração e política habitacional do período militar. O segundo é social. A precariedade inicial levou os moradores a criar redes de vizinhança, ajuda mútua, reivindicação e pertencimento. O terceiro é cultural e político. A Paróquia São João Evangelista, as comunidades eclesiais de base, os grupos de jovens, os jornais alternativos, o FESPAPI, o teatro, o CSU e as mobilizações populares transformaram o bairro em território de organização comunitária e produção cultural.
Em perspectiva histórica, o Parque Piauí passou por quatro momentos principais. Primeiro, foi periferia planejada e precária. Depois, tornou-se comunidade politizada e culturalmente ativa. Em seguida, consolidou-se como bairro integrado e comercialmente valorizado. Por fim, passou a funcionar como subcentro da zona sul, ainda atravessado pela memória de suas lutas urbanas. Por isso, o Parque Piauí não deve ser descrito apenas como conjunto habitacional ou bairro populoso. Sua trajetória revela uma experiência urbana complexa, na qual moradia, periferia, fé, política, música, teatro, comércio e memória comunitária se sobrepõem.
1950 - 1970 - Teresina entre modernização e precariedade urbana
Entre as décadas de 1950 e 1970, Teresina passou por intervenções arquitetônicas, viárias e espaciais conduzidas pelo Estado, em nome da modernização e do embelezamento urbano. Esse processo convivia, porém, com uma cidade ainda marcada por precariedade material: iluminação deficiente, abastecimento de água irregular, ausência de esgoto, poucas ruas asfaltadas e presença de casas de pau-a-pique cobertas de palha. Esse quadro ajuda a compreender o surgimento posterior dos conjuntos habitacionais como resposta estatal ao crescimento urbano e às pressões por moradia. (Nascimento, 2007)
Antes da década de 1960 - As terras do Angelim de Baixo
Segundo Ogmar Monteiro, a área posteriormente ocupada pelo Parque Piauí integrava a antiga Fazenda Angelim de Baixo, propriedade rural situada ao sul de Teresina. O território da fazenda abrangia extensas áreas que, décadas depois, dariam origem a bairros e equipamentos urbanos como Parque Piauí, Saci, Lourival Parente, Bela Vista, Distrito Industrial e CEASA. O testemunho sugere que a expansão urbana da zona sul ocorreu sobre antigas propriedades rurais incorporadas gradualmente ao crescimento da capital. (Monteiro, 1988)
Década de 1960 - Crescimento populacional e pressão por moradia
O aumento da população urbana de Teresina foi alimentado por migrações vindas do interior do Piauí, da zona rural e de outros estados nordestinos. A cidade se consolidava como centro administrativo, comercial, educacional e de serviços, mas não absorvia adequadamente a população pobre que chegava. A moradia popular tornou-se, nesse contexto, uma questão urbana central. (Nascimento, 2007; Monte, 2010; Lacerda, 2013)
1964-1965 - BNH, COHAB-PI e política habitacional
A criação do Banco Nacional da Habitação, em 1964, e da COHAB-PI, em 1965, inseriu Teresina no ciclo nacional de construção de conjuntos habitacionais. A habitação passou a ser tratada como política pública estratégica, vinculada ao projeto de modernização urbana do período militar. (Nascimento, 2007; Silveira et al., 2018; Lacerda, 2013)
1966-1969 - Construção dos conjuntos habitacionais
Entre 1966 e 1969, Teresina recebeu cinco conjuntos habitacionais. O Parque Piauí foi o maior deles, com 2.294 unidades, implantado na zona sul. A construção desse conjunto representou a expansão planejada da cidade para uma área periférica, ainda pouco integrada ao núcleo urbano consolidado. (Façanha apud Nascimento, 2007; Silveira et al., 2018; Lacerda, 2013)
Maio de 1967 - Início das obras do Parque Piauí
As obras do Conjunto Habitacional Parque Piauí começaram em maio de 1967, durante o governo Helvídio Nunes, pela Construtora Lourival Parente. O conjunto foi implantado em área distante do centro, ligada principalmente pela atual Avenida Henry Wall de Carvalho e pela BR-316. (Silveira et al., 2018; Lima, 2016; Alves, 2024)
Junho de 1968 - Ocupação por funcionários civis do 2º BEC
Segundo relato colhido por Benilton Lacerda, uma quadra de casas do conjunto foi destinada a funcionários civis do 2º Batalhão de Engenharia e Construção, que receberam as chaves em junho de 1968. Esse dado mostra que a ocupação inicial não ocorreu apenas por sorteio regular da COHAB, mas também por interferências institucionais e políticas. (Lacerda, 2013)
Setembro de 1968 - Inauguração do conjunto
O Parque Piauí foi concluído e inaugurado em setembro de 1968, com 2.294 unidades habitacionais e três modelos de plantas. Apesar da dimensão do empreendimento, os primeiros anos foram marcados por baixa atratividade, casas abandonadas, poeira, ausência de água e precariedade de infraestrutura. (Silveira et al., 2018; Lacerda, 2013; Alves, 2024)
1969 - Criação da Paróquia São João Evangelista
A Paróquia São João Evangelista foi criada em 1969, na administração arquidiocesana de Dom Avelar Brandão Vilela. A presença da Igreja Católica no bairro teve papel decisivo na formação comunitária, especialmente por meio de padres estrangeiros, grupos de evangelho e práticas pastorais voltadas aos problemas sociais locais. (Lacerda, 2013)
1969 - Crítica do PDLI à localização do conjunto
O Plano de Desenvolvimento Local Integrado de Teresina, de 1969, criticou a implantação do Parque Piauí a cerca de sete quilômetros do centro, apontando que o conjunto forçava o crescimento urbano em direção a uma área sem infraestrutura suficiente. Esse diagnóstico confirma que o bairro nasceu como periferia planejada, mas insuficientemente servida. (PDLI, 1969; Monte, 2010; Silveira et al., 2018)
Final dos anos 1960 e início dos anos 1970 - De conjunto habitacional a bairro
Benilton Lacerda propõe uma distinção importante: o Estado construiu o conjunto, mas os moradores construíram o bairro. A transformação ocorreu pela ocupação progressiva das casas, pelas conversas nas quadras, pela ajuda mútua, pelas visitas religiosas e pela formação de grupos comunitários. O Parque Piauí deixou de ser apenas uma sequência de casas pré-construídas e passou a ser um espaço de pertencimento, sociabilidade e reivindicação. (Lacerda, 2013)
1970–1973 - Equipamentos urbanos iniciais

Campo de futebol, Parque Piauí, em 1973
Fonte: Acervo particular de Benilton Torres de Lacerda
A dissertação de Lacerda registra imagens do bairro nos primeiros anos, incluindo casas do conjunto em 1970, Mercado Público Lourival Lira Parente em 1971, quadra de esporte em 1972, estádio/campo de futebol em 1973 e Complexo Escolar Cícero Portela Nunes em 1973. Esses registros indicam que o bairro começou a receber equipamentos de abastecimento, lazer, educação e sociabilidade ainda na fase inicial de consolidação. (Lacerda, 2013)
1971 - Mercado Público Lourival Lira Parente
A existência do Mercado Público em 1971 é um dado relevante porque indica a formação de uma economia cotidiana local. O mercado ajudou a organizar abastecimento, circulação de moradores e pequenos serviços, funcionando como equipamento de centralidade interna do bairro. (Lacerda, 2013)
1972–1977 - Atuação do padre Sandro Spinelli
O padre Sandro Spinelli chegou a Teresina em 1972, vindo de Verona, e atuou no Parque Piauí até 1977. Segundo Lacerda, ele construiu o templo religioso do conjunto, residiu no bairro e desenvolveu uma ação evangelizadora consistente junto à comunidade. Sua presença fortaleceu a articulação entre fé, vida cotidiana e participação comunitária. (Lacerda, 2013)
Paulo Ricardo Muniz Silva identifica a atuação dos padres italianos e das comunidades eclesiais de base como elemento central na formação da consciência política do Parque Piauí. Em depoimento ao pesquisador, Williams Costa atribui papel destacado ao padre Sandro Spinelli, descrito como liderança próxima da comunidade e engajada em iniciativas de organização popular. Segundo o entrevistado, a atuação da Igreja Católica, influenciada pela Teologia da Libertação, contribuiu para a formação de grupos de jovens e para o desenvolvimento de práticas de participação comunitária e política no bairro. (Costa, 2010 apud Silva, 2013)
Década de 1970 - Comunidades eclesiais, grupos de jovens e consciência comunitária
A atuação da Paróquia São João Evangelista, influenciada pelo catolicismo progressista e pela Teologia da Libertação, contribuiu para a formação de grupos de evangelho, grupos de jovens, conselhos comunitários e práticas reivindicatórias. O bairro passou a reunir moradores, religiosos, artistas, professores, estudantes, sindicalistas e militantes em torno de pautas sociais. (Lacerda, 2013; Silva, 2013; Sousa, Perez e Viana, 2020)
Década de 1970 - Parque Piauí como bairro de cultura política
O Parque Piauí tornou-se espaço de música de protesto, teatro, imprensa alternativa e mobilização juvenil. Paulo Ricardo Muniz Silva identifica o bairro como um lugar propício à produção de manifestações artísticas de teor contestatório, articulando juventude, música, literatura, teatro e crítica social. (Silva, 2013)
Segunda metade da década de 1970 - AMPAPI e CSU como espaços culturais
A primeira edição do FESPAPI ocorreu na Associação dos Moradores do Parque Piauí, a AMPAPI. As edições seguintes passaram para o Centro Social Urbano, o CSU. A organização dependia de patrocínios locais, apoio institucional e soluções improvisadas para aparelhagem sonora. (Silva, 2013; Medeiros, 2014)
O Parque Piauí aparece como território pioneiro de organização popular. Segundo estudos citados por Sousa, Perez e Viana, a primeira manifestação pública de protesto do Primeiro de Maio no Piauí ocorreu no bairro, em 1977. A data deixou de ser apenas comemorativa e passou a funcionar como oportunidade de denúncia e reivindicação dos trabalhadores. (Silva, 2000 apud Sousa, Perez e Viana, 2020)
1977 - Ampliação do bairro
Matéria do Portal O Dia registra que o bairro foi ampliado em 1977. (Alves, 2024)
1977 - 1983 - Reservatórios e abastecimento de água
A ampliação da infraestrutura de abastecimento de água aparece como etapa decisiva na consolidação da zona sul. Jurandir Lima registra a implantação de estações de tratamento e reservatórios, incluindo estruturas no Parque Piauí. Em 1983, o Jornal do Piauí noticiou reservatórios destinados à área alta de Teresina, incluindo Parque Piauí, Saci, Lourival Parente, Redenção, Tabuleta e São Pedro. (Lima, 2016; Jornal do Piauí, 27 jan. 1983 apud Lima, 2016)
1979 - Apoio às trabalhadoras da Fábrica de Castanha
Lacerda registra que, no final de 1979, coordenadores dos grupos de jovens ligados à Igreja Católica do Parque Piauí ajudaram a promover uma paralisação de três dias na Fábrica de Beneficiamento da Castanha de Caju, situada no Distrito Industrial, próximo ao bairro. As trabalhadoras reivindicavam salário justo e melhores condições de trabalho. (Lacerda, 2013)
1979 - 1984 - Jornal Alternativa

A dissertação de Lacerda registra vários exemplares do jornal Alternativa, datados entre 1979 e 1984, produzidos no próprio bairro. Esse material indica uma cultura política escrita, local, comunitária e vinculada aos movimentos populares do Parque Piauí. (Lacerda, 2013)
Raimundo Nonato Lima dos Santos registra, a partir do depoimento de Ací Campelo, que jovens e artistas caminhavam até o Parque Piauí para frequentar o CSU, considerado um “grande point cultural”. O espaço recebia festivais de música, teatro e grupos culturais, sendo reconhecido como lugar de debate sobre cultura. (Campelo, 2015 apud Santos, s.d.)
Década de 1980 - Teatro e grupos culturais no bairro
Segundo Ací Campelo, o Parque Piauí tinha dois ou três grupos de teatro e realizava festivais de música dos quais saíram vários cantores piauienses. Esse dado reforça o papel do bairro como polo cultural da zona sul, articulado à música, teatro e sociabilidade juvenil. (Campelo, 2015 apud Santos, s.d.)
Década de 1980 - Mobilidade precária e caminhadas urbanas
A precariedade do transporte coletivo fazia com que jovens, artistas e estudantes circulassem pela cidade a pé, de bicicleta, táxi ou carona. O deslocamento até o Parque Piauí mostra que, apesar da distância, o bairro integrava uma cartografia cultural vivida corporalmente pela juventude teresinense. (Santos, s.d.)
Década de 1980 - Adensamento e ocupação dos vazios urbanos
A partir da década de 1980, vazios urbanos e áreas livres do Parque Piauí passaram a ser loteados e ocupados. Esse processo contribuiu para o adensamento do bairro e para a redução de áreas verdes em relação ao projeto original. (Silveira et al., 2018; Lima, 2016)
Década de 1990 - Integração ao sítio urbano consolidado
Na década de 1990, conjuntos habitacionais construídos nas décadas anteriores, como Parque Piauí, Bela Vista, Promorar e Saci, já estavam integrados ao tecido urbano de Teresina. O bairro passou a ser reconhecido como espaço habitacional e comercial tradicional da zona sul. (Lima, 2016)
1991 - 2010 - Crescimento comercial e transformação do uso residencial
Entre 1991 e 2010, a população do Parque Piauí diminuiu, enquanto comércio e serviços se expandiram. Silveira et al. associam esse processo à valorização dos lotes e à conversão de residências em imóveis comerciais e de uso misto, sobretudo nas vias de maior circulação. (Silveira et al., 2018; IBGE, 2010)
2010 - Bairro consolidado
Em 2010, o Parque Piauí possuía 11.307 habitantes e 3.024 domicílios. O bairro já apresentava abastecimento de água, energia elétrica e coleta de lixo, embora o esgotamento sanitário ainda fosse predominantemente por fossa séptica. (IBGE, 2010; SEMPLAN, 2016; Silveira et al., 2018)
2015 - Movimento Ocupa Praça
Em 2015, moradores se mobilizaram contra a construção de um terminal de ônibus na Praça das Ações Comunitárias. A ocupação começou após passeata pelo bairro e durou nove meses. O movimento articulou defesa ambiental, crítica ao processo decisório da política de mobilidade urbana e reivindicação da praça como espaço comunitário. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Emelly. Da terra ao concreto: a história da construção do Parque Piauí. Portal O Dia, Teresina, 14 fev. 2024.
BEZERRA, José Pereira. Anos 70: Por que essa lâmina nas palavras? Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1993.
Década de 1970 - Comunidades eclesiais, grupos de jovens e consciência comunitária
A atuação da Paróquia São João Evangelista, influenciada pelo catolicismo progressista e pela Teologia da Libertação, contribuiu para a formação de grupos de evangelho, grupos de jovens, conselhos comunitários e práticas reivindicatórias. O bairro passou a reunir moradores, religiosos, artistas, professores, estudantes, sindicalistas e militantes em torno de pautas sociais. (Lacerda, 2013; Silva, 2013; Sousa, Perez e Viana, 2020)
Década de 1970 - Parque Piauí como bairro de cultura política
O Parque Piauí tornou-se espaço de música de protesto, teatro, imprensa alternativa e mobilização juvenil. Paulo Ricardo Muniz Silva identifica o bairro como um lugar propício à produção de manifestações artísticas de teor contestatório, articulando juventude, música, literatura, teatro e crítica social. (Silva, 2013)
Década de 1970 - Venâncio do Parque e a liderança cultural do FESPAPI
O Parque Piauí reunia condições para a formação de um público jovem, politizado e capaz de interpretar mensagens musicais metafóricas. Segundo Silva, o bairro era espaço propício para manifestações artísticas contestatórias, com jornais alternativos, teatro, literatura e música de protesto. (Silva, 2013)
Francisco das Chagas Venâncio, professor da rede estadual, tornou-se uma das figuras centrais da vida cultural do Parque Piauí. Ligado à organização do FESPAPI, aparece na memória de Deusdeth Nunes como liderança do festival: “Conheci-o num festival de música que ele era cabeça no Parque Piauí”. A partir dessa atuação, Venâncio passou a circular também pelo rádio, integrando o programa Um Prego na Chuteira, na Rádio Clube, onde recebeu o nome pelo qual ficaria conhecido: Venâncio do Parque. Sua trajetória conecta o bairro, o festival, a música, o rádio e a crítica social. (Nunes, 2010; Silva, 2013)
Francisco das Chagas Venâncio aparece como professor de matemática, músico, leitor de jornais alternativos como O Pasquim e O Movimento, figura crítica e liderança decisiva do FESPAPI. O artigo o situa como personagem central da efervescência político-cultural do Parque Piauí na segunda metade da década de 1970. (Costa, 2010 apud Silva, 2013)
1974 - 1977 - Jornal O Osso e imprensa mimeografada no Parque Piauí
Lacerda registra a existência do jornal O Osso, de 1974, elaborado e impresso no próprio bairro. Esse dado dialoga com Paulo Ricardo Muniz Silva, que menciona jornais alternativos como O Osso e Habeas Corpus, compostos por poemas, desenhos, crônicas e textos críticos sobre literatura e arte.
Em depoimento posterior, J. L. Rocha do Nascimento situa sua participação nessa imprensa mimeografada a partir de 1977, quando, morando no Parque Piauí, integrou o grupo que produziu O Osso — um jornal duro de ler, inspirado em jornais alternativos como O Pasquim, Opinião, Movimento e Chapada do Corisco. A redação funcionava na Quadra 30, Casa 07, e o jornal era produzido com máquina de datilografia, papel stencil, gravador e mimeógrafo. (Lacerda, 2013; Silva, 2013; Nascimento, 2021)
1975 - Início do FESPAPI
O Festival de Música Popular do Parque Piauí, FESPAPI, teve início em 1975, organizado por moradores do bairro. O festival surgiu como espaço para novos compositores e intérpretes, inserindo o Parque Piauí na rede musical urbana de Teresina. (Medeiros, 2014)
O Festival de Música Popular do Parque Piauí, FESPAPI, teve início em 1975, organizado por moradores do bairro. O festival surgiu como espaço para novos compositores e intérpretes, inserindo o Parque Piauí na rede musical urbana de Teresina. (Medeiros, 2014)
Segundo Paulo Ricardo Muniz Silva, o FESPAPI teve início em 1975 e permaneceu ativo por cerca de dez anos, despedindo-se do cenário por volta de 1984. O festival foi organizado por moradores do Parque Piauí, mas tinha alcance estadual, funcionando como espaço de música, protesto, sociabilidade juvenil e produção cultural comunitária. (Silva, 2013)
A primeira edição do Festival de Música do Parque Piauí ocorreu em 1975. O evento surgiu em um bairro proletário, marcado por atividades político-culturais como música, teatro e literatura engajada. (Silva, 2013)
Williams Costa informa que o FESPAPI começou por volta de 1975 e seguiu até aproximadamente 1978, passando depois por um período de interrupção. Essa informação ajuda a dividir o festival em fases: uma primeira etapa nos anos 1970 e uma retomada nos anos 1980. (Costa, 2010 apud Silva, 2013)
Williams Costa informa que o FESPAPI começou por volta de 1975 e seguiu até aproximadamente 1978, passando depois por um período de interrupção. Essa informação ajuda a dividir o festival em fases: uma primeira etapa nos anos 1970 e uma retomada nos anos 1980. (Costa, 2010 apud Silva, 2013)
O período de 1975 a 1985 foi central para os festivais e para as canções de protesto em Teresina. No FESPAPI, músicas como Biotema, Medusa, Transe Urbano, Arames e Fuzis e Represália expressavam medo, repressão, censura, vigilância e desejo de liberdade. (Silva, 2013)
Segunda metade da década de 1970 - AMPAPI e CSU como espaços culturais
A primeira edição do FESPAPI ocorreu na Associação dos Moradores do Parque Piauí, a AMPAPI. As edições seguintes passaram para o Centro Social Urbano, o CSU. A organização dependia de patrocínios locais, apoio institucional e soluções improvisadas para aparelhagem sonora. (Silva, 2013; Medeiros, 2014)
1977 - Primeira manifestação pública de Primeiro de Maio no Piauí
O Parque Piauí aparece como território pioneiro de organização popular. Segundo estudos citados por Sousa, Perez e Viana, a primeira manifestação pública de protesto do Primeiro de Maio no Piauí ocorreu no bairro, em 1977. A data deixou de ser apenas comemorativa e passou a funcionar como oportunidade de denúncia e reivindicação dos trabalhadores. (Silva, 2000 apud Sousa, Perez e Viana, 2020)
1977 - Ampliação do bairro
Matéria do Portal O Dia registra que o bairro foi ampliado em 1977. (Alves, 2024)
1977 - 1983 - Reservatórios e abastecimento de água
A ampliação da infraestrutura de abastecimento de água aparece como etapa decisiva na consolidação da zona sul. Jurandir Lima registra a implantação de estações de tratamento e reservatórios, incluindo estruturas no Parque Piauí. Em 1983, o Jornal do Piauí noticiou reservatórios destinados à área alta de Teresina, incluindo Parque Piauí, Saci, Lourival Parente, Redenção, Tabuleta e São Pedro. (Lima, 2016; Jornal do Piauí, 27 jan. 1983 apud Lima, 2016)
1979 - Apoio às trabalhadoras da Fábrica de Castanha
Lacerda registra que, no final de 1979, coordenadores dos grupos de jovens ligados à Igreja Católica do Parque Piauí ajudaram a promover uma paralisação de três dias na Fábrica de Beneficiamento da Castanha de Caju, situada no Distrito Industrial, próximo ao bairro. As trabalhadoras reivindicavam salário justo e melhores condições de trabalho. (Lacerda, 2013)
1979 - 1984 - Jornal Alternativa

A dissertação de Lacerda registra vários exemplares do jornal Alternativa, datados entre 1979 e 1984, produzidos no próprio bairro. Esse material indica uma cultura política escrita, local, comunitária e vinculada aos movimentos populares do Parque Piauí. (Lacerda, 2013)
Anos 1980 - Retomada do FESPAPI
Após um intervalo, o FESPAPI retornou nos anos 1980, em um contexto de distensão da ditadura militar. Ainda havia monitoramento e censura, mas o ambiente político já era menos fechado do que nos anos 1970. (Costa, 2010 apud Silva, 2013)
1981 - Sétima edição do FESPAPI
Em 1981, o FESPAPI já estava em sua sétima edição. Isso confirma que o festival não foi evento isolado, mas experiência cultural de longa duração no bairro. Em 11 de julho, o Jornal O Dia publicou chamada sobre o FESPAPI: “FESTAPI começa hoje à noite”. (Jornal O Dia, 11 jul. 1981 apud Medeiros, 2014)
1982 - Compacto do VI FESPAPI
Hermano Carvalho Medeiros registra a existência de um compacto do VI FESPAPI entre as produções fonográficas teresinenses. Esse dado mostra que o festival do Parque Piauí gerou registro sonoro e circulação material para além do evento presencial. (Medeiros, s.d.)
1982 - Disco da VII edição do FESPAPI
A sétima edição do festival resultou no disco VII FESPAPI: Festival de Música Popular do Parque Piauí, lançado pela Discos Sapucaia, com quatro músicas vencedoras. O vinil dá materialidade à memória musical do bairro. (Medeiros, 2014)
Década de 1980 - Parque Piauí nos trajetos culturais da cidade
Em 1981, o FESPAPI já estava em sua sétima edição. Isso confirma que o festival não foi evento isolado, mas experiência cultural de longa duração no bairro. Em 11 de julho, o Jornal O Dia publicou chamada sobre o FESPAPI: “FESTAPI começa hoje à noite”. (Jornal O Dia, 11 jul. 1981 apud Medeiros, 2014)
1982 - Compacto do VI FESPAPI
Hermano Carvalho Medeiros registra a existência de um compacto do VI FESPAPI entre as produções fonográficas teresinenses. Esse dado mostra que o festival do Parque Piauí gerou registro sonoro e circulação material para além do evento presencial. (Medeiros, s.d.)
1982 - Disco da VII edição do FESPAPI
A sétima edição do festival resultou no disco VII FESPAPI: Festival de Música Popular do Parque Piauí, lançado pela Discos Sapucaia, com quatro músicas vencedoras. O vinil dá materialidade à memória musical do bairro. (Medeiros, 2014)
Década de 1980 - Parque Piauí nos trajetos culturais da cidade
Raimundo Nonato Lima dos Santos registra, a partir do depoimento de Ací Campelo, que jovens e artistas caminhavam até o Parque Piauí para frequentar o CSU, considerado um “grande point cultural”. O espaço recebia festivais de música, teatro e grupos culturais, sendo reconhecido como lugar de debate sobre cultura. (Campelo, 2015 apud Santos, s.d.)
Década de 1980 - Teatro e grupos culturais no bairro
Segundo Ací Campelo, o Parque Piauí tinha dois ou três grupos de teatro e realizava festivais de música dos quais saíram vários cantores piauienses. Esse dado reforça o papel do bairro como polo cultural da zona sul, articulado à música, teatro e sociabilidade juvenil. (Campelo, 2015 apud Santos, s.d.)
Década de 1980 - Mobilidade precária e caminhadas urbanas
A precariedade do transporte coletivo fazia com que jovens, artistas e estudantes circulassem pela cidade a pé, de bicicleta, táxi ou carona. O deslocamento até o Parque Piauí mostra que, apesar da distância, o bairro integrava uma cartografia cultural vivida corporalmente pela juventude teresinense. (Santos, s.d.)
Década de 1980 - Adensamento e ocupação dos vazios urbanos
A partir da década de 1980, vazios urbanos e áreas livres do Parque Piauí passaram a ser loteados e ocupados. Esse processo contribuiu para o adensamento do bairro e para a redução de áreas verdes em relação ao projeto original. (Silveira et al., 2018; Lima, 2016)
1981 - VII FESPAPI e censura prévia
J. L. Rocha do Nascimento relata que participou da organização do VII FESPAPI, coordenado por Auri Lessa no CSU. No ato de inscrição, os candidatos precisavam entregar fita cassete com a composição musical, que era submetida previamente à Polícia Federal. Esse dado acrescenta uma camada decisiva ao festival: o FESPAPI não era apenas evento musical comunitário, mas também prática cultural realizada sob vigilância do regime militar. (Nascimento, 2021; Medeiros, 2014)
Anos 1980 - 1990 - Moby Dick e sociabilidade noturna
A Moby Dick aparece na memória de antigos frequentadores como danceteria ligada ao Parque Piauí e à divisa com o Lourival Parente. Sua lembrança surge ao lado de outras casas noturnas, como Aquarius, Doce Vida e Brilhos, indicando um circuito juvenil de dança, namoro e deslocamentos entre bairros. (Paes, 2015; Valadares, 2014; Deolindo, 2013)
Década de 1990 - Integração ao sítio urbano consolidado
Na década de 1990, conjuntos habitacionais construídos nas décadas anteriores, como Parque Piauí, Bela Vista, Promorar e Saci, já estavam integrados ao tecido urbano de Teresina. O bairro passou a ser reconhecido como espaço habitacional e comercial tradicional da zona sul. (Lima, 2016)
1995 - Parque Piauí no circuito do Festival Chapadão
Em 1995, o Parque Piauí recebeu uma das etapas do Festival de Música da Chapada do Corisco, o Chapadão, criado por Ací Campelo, Aurélio Melo e Henrique Costandrade no âmbito da Fundação Cultural Monsenhor Chaves. O festival tinha formato descentralizado, com eliminatórias em bairros de Teresina e final no centro da cidade. Ao lado de Mocambinho, Dirceu Arcoverde, Bela Vista, Piçarreira e Ininga, o Parque Piauí aparece como um dos bairros que receberam o evento em praça pública ou ginásio poliesportivo, mantendo sua presença na cartografia musical da cidade depois do ciclo do FESPAPI. (Campelo, 2012)
1996 - 1997 - Fundação Viver com Dignidade
A Fundação Viver com Dignidade surgiu no Parque Piauí entre 1996 e 1997, vinculada à atuação de padres italianos e a projetos sociais voltados à comunidade local. A experiência deu continuidade a uma tradição comunitária já presente no bairro desde as décadas anteriores. (Silva, 2025)
1997 - Comunicação por alto-falantes da paróquia
Antes da consolidação da Rádio Verona, a comunicação comunitária ocorria por meio dos alto-falantes da paróquia. Maricildes da Silva relata que participava das programações matinais nesse sistema, ligado às atividades religiosas e comunitárias do bairro. (Silva, 2025)
2002 - Institucionalização da Fundação
A Fundação Viver com Dignidade foi institucionalizada em 2002. A Rádio Verona FM passou a se estruturar a partir desse campo de ação social, mantendo vínculo com projetos comunitários, práticas religiosas e comunicação popular. (Silva, 2025)
Anos 2000 - Consolidação da Verona FM
A Verona FM consolidou-se como rádio comunitária do Parque Piauí, operando na frequência 87,9 MHz. Sua programação passou a reunir conteúdos religiosos, musicais, esportivos, comunitários e informativos.
A rádio tornou-se espaço de formação prática para comunicadores populares. Segundo Carlos Silva, muitas pessoas passaram pela Verona FM antes de chegar a veículos maiores da imprensa local. (Carlos Silva apud Silva, 2025)
A tradicional Feijoada da Verona tornou-se prática de arrecadação e sociabilidade comunitária. O evento reúne moradores e apoiadores no Parque Piauí, reforçando os vínculos entre rádio, fundação e comunidade. (Silva, 2025)
1991 - 2010 - Crescimento comercial e transformação do uso residencial
Entre 1991 e 2010, a população do Parque Piauí diminuiu, enquanto comércio e serviços se expandiram. Silveira et al. associam esse processo à valorização dos lotes e à conversão de residências em imóveis comerciais e de uso misto, sobretudo nas vias de maior circulação. (Silveira et al., 2018; IBGE, 2010)
2010 - Bairro consolidado
Em 2010, o Parque Piauí possuía 11.307 habitantes e 3.024 domicílios. O bairro já apresentava abastecimento de água, energia elétrica e coleta de lixo, embora o esgotamento sanitário ainda fosse predominantemente por fossa séptica. (IBGE, 2010; SEMPLAN, 2016; Silveira et al., 2018)
2012 - Assis Brasil e o Parque Piauí na poesia urbana recente
No poema “despertar”, Rodrigo M. Leite registra uma cena cotidiana do Parque Piauí atravessada pela presença de Assis Brasil, escritor que residiu por um período no bairro. A imagem dos urubus nos postes, da caminhada rumo ao mercado, da carroça de massará e do motoqueiro do gás aproxima o escritor da vida ordinária do bairro. O poema insere o Parque Piauí numa cartografia literária marcada por ruídos matinais, deslocamento e observação urbana. (Leite, 2012)
Em entrevista à revista Revestrés, publicada originalmente em 2012, Assis Brasil foi localizado em sua casa no Parque Piauí, onde vivia de modo simples, cercado por livros, filmes e máquinas de escrever. O relato registra que o escritor tomava café na padaria, almoçava no mercado do Parque ou em pequeno restaurante próximo, inserindo sua rotina literária na vida cotidiana do bairro. A entrevista também informa que Assis voltou a morar em Teresina em 2008, depois de longa trajetória no Rio de Janeiro, e que, nessa nova fase, retomou a produção literária. (Revestrés, 2012)
2015 - Movimento Ocupa Praça
Em 2015, moradores se mobilizaram contra a construção de um terminal de ônibus na Praça das Ações Comunitárias. A ocupação começou após passeata pelo bairro e durou nove meses. O movimento articulou defesa ambiental, crítica ao processo decisório da política de mobilidade urbana e reivindicação da praça como espaço comunitário. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
4 de outubro de 2015 - Ocupação da Praça das Ações Comunitárias
A ocupação da Praça das Ações Comunitárias começou em 4 de outubro de 2015. A rede de apoiadores incluiu moradores, REAPI, coletivo Ocuparte, SINDISERM, estudantes da UFPI e UESPI, associações de outros bairros, ambientalistas, entidades de assistência jurídica e militantes políticos. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
A defesa da Praça das Ações Comunitárias pode ser compreendida à luz dos estudos sobre espaços livres públicos em territórios populares. Praças e parques oferecem lazer gratuito, convivência, práticas de saúde, encontros comunitários e articulação de interesses coletivos. Assim, o Ocupa Praça defendia não apenas árvores, mas um equipamento urbano essencial ao cotidiano do bairro. (Sousa, Perez e Viana, 2020; Lopes et al., 2023)
2016 - Vitória do Ocupa Praça
O terminal de ônibus não foi construído na Praça das Ações Comunitárias, sendo instalado em outro ponto do bairro. A praça e suas árvores foram preservadas após nove meses de mobilização. O episódio atualizou uma tradição de organização comunitária já presente na história do Parque Piauí desde os anos 1970. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
2016 - 2018 - Parque Piauí como subcentro da zona sul
O bairro passou a ser interpretado como subcentro da zona sul, pela concentração de comércio, serviços, escolas, mercado público, equipamentos institucionais e terminal de integração. Nesse sentido, o Parque Piauí deixou de ser periferia residencial distante e passou a funcionar como centralidade secundária em relação ao centro tradicional de Teresina. (Villaça, 1998; Lima, 2016; Silveira et al., 2018)
A ocupação da Praça das Ações Comunitárias começou em 4 de outubro de 2015. A rede de apoiadores incluiu moradores, REAPI, coletivo Ocuparte, SINDISERM, estudantes da UFPI e UESPI, associações de outros bairros, ambientalistas, entidades de assistência jurídica e militantes políticos. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
A defesa da Praça das Ações Comunitárias pode ser compreendida à luz dos estudos sobre espaços livres públicos em territórios populares. Praças e parques oferecem lazer gratuito, convivência, práticas de saúde, encontros comunitários e articulação de interesses coletivos. Assim, o Ocupa Praça defendia não apenas árvores, mas um equipamento urbano essencial ao cotidiano do bairro. (Sousa, Perez e Viana, 2020; Lopes et al., 2023)
2016 - Vitória do Ocupa Praça
O terminal de ônibus não foi construído na Praça das Ações Comunitárias, sendo instalado em outro ponto do bairro. A praça e suas árvores foram preservadas após nove meses de mobilização. O episódio atualizou uma tradição de organização comunitária já presente na história do Parque Piauí desde os anos 1970. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
2016 - 2018 - Parque Piauí como subcentro da zona sul
O bairro passou a ser interpretado como subcentro da zona sul, pela concentração de comércio, serviços, escolas, mercado público, equipamentos institucionais e terminal de integração. Nesse sentido, o Parque Piauí deixou de ser periferia residencial distante e passou a funcionar como centralidade secundária em relação ao centro tradicional de Teresina. (Villaça, 1998; Lima, 2016; Silveira et al., 2018)
2023 - Parque Piauí, Assis Brasil e cartografia literária de Teresina
No poema “Cartografia infinda”, Renata Flávia situa o Parque Piauí como ponto inicial de um percurso literário por Teresina. A cena começa com Assis Brasil cruzando a Praça da Integração, enquanto M. Leite descreve os urubus e o cheiro forte do mercado, alguns quarteirões abaixo. A partir daí, o poema desloca o olhar para a Avenida Maranhão, o rio, o centro, a Praça Pedro II, a Central de Artesanato e a Rua São João, compondo uma cartografia urbana atravessada por escritores, ruínas, abandono e memória cultural. (Flávia, 2023)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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ENTRECULTURA. A praça é do povo! Teresina, 2016.
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FLÁVIA, Renata. Cartografia infinda. Musa Esquecida, 28 jul. 2023. Poema inédito em livro, enviado pela autora.
IBGE. Censo Demográfico 2010.
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