"Parque Piauí: moradia, cultura e luta urbana na Zona Sul de Teresina"
1950 - 1970 - Teresina entre modernização e precariedade urbana
Entre as décadas de 1950 e 1970, Teresina passou por intervenções arquitetônicas, viárias e espaciais conduzidas pelo Estado, em nome da modernização e do embelezamento urbano. Esse processo convivia, porém, com uma cidade ainda marcada por precariedade material: iluminação deficiente, abastecimento de água irregular, ausência de esgoto, poucas ruas asfaltadas e presença de casas de pau-a-pique cobertas de palha. Esse quadro ajuda a compreender o surgimento posterior dos conjuntos habitacionais como resposta estatal ao crescimento urbano e às pressões por moradia. (Nascimento, 2007)
Década de 1960 - Crescimento populacional e pressão por moradia
O aumento da população urbana de Teresina foi alimentado por migrações vindas do interior do Piauí, da zona rural e de outros estados nordestinos. A cidade se consolidava como centro administrativo, comercial, educacional e de serviços, mas não absorvia adequadamente a população pobre que chegava. A moradia popular tornou-se, nesse contexto, uma questão urbana central. (Nascimento, 2007; Monte, 2010; Lacerda, 2013)
1964-1965 - BNH, COHAB-PI e política habitacional
A criação do Banco Nacional da Habitação, em 1964, e da COHAB-PI, em 1965, inseriu Teresina no ciclo nacional de construção de conjuntos habitacionais. A habitação passou a ser tratada como política pública estratégica, vinculada ao projeto de modernização urbana do período militar. (Nascimento, 2007; Silveira et al., 2018; Lacerda, 2013)
1966-1969 - Construção dos conjuntos habitacionais
Entre 1966 e 1969, Teresina recebeu cinco conjuntos habitacionais. O Parque Piauí foi o maior deles, com 2.294 unidades, implantado na zona sul. A construção desse conjunto representou a expansão planejada da cidade para uma área periférica, ainda pouco integrada ao núcleo urbano consolidado. (Façanha apud Nascimento, 2007; Silveira et al., 2018; Lacerda, 2013)
Maio de 1967 - Início das obras do Parque Piauí
As obras do Conjunto Habitacional Parque Piauí começaram em maio de 1967, durante o governo Helvídio Nunes, pela Construtora Lourival Parente. O conjunto foi implantado em área distante do centro, ligada principalmente pela atual Avenida Henry Wall de Carvalho e pela BR-316. (Silveira et al., 2018; Lima, 2016; Alves, 2024)
Junho de 1968 - Ocupação por funcionários civis do 2º BEC
Segundo relato colhido por Benilton Lacerda, uma quadra de casas do conjunto foi destinada a funcionários civis do 2º Batalhão de Engenharia e Construção, que receberam as chaves em junho de 1968. Esse dado mostra que a ocupação inicial não ocorreu apenas por sorteio regular da COHAB, mas também por interferências institucionais e políticas. (Lacerda, 2013)
Setembro de 1968 - Inauguração do conjunto
O Parque Piauí foi concluído e inaugurado em setembro de 1968, com 2.294 unidades habitacionais e três modelos de plantas. Apesar da dimensão do empreendimento, os primeiros anos foram marcados por baixa atratividade, casas abandonadas, poeira, ausência de água e precariedade de infraestrutura. (Silveira et al., 2018; Lacerda, 2013; Alves, 2024)
1969 - Criação da Paróquia São João Evangelista
A Paróquia São João Evangelista foi criada em 1969, na administração arquidiocesana de Dom Avelar Brandão Vilela. A presença da Igreja Católica no bairro teve papel decisivo na formação comunitária, especialmente por meio de padres estrangeiros, grupos de evangelho e práticas pastorais voltadas aos problemas sociais locais. (Lacerda, 2013)
1969 - Crítica do PDLI à localização do conjunto
O Plano de Desenvolvimento Local Integrado de Teresina, de 1969, criticou a implantação do Parque Piauí a cerca de sete quilômetros do centro, apontando que o conjunto forçava o crescimento urbano em direção a uma área sem infraestrutura suficiente. Esse diagnóstico confirma que o bairro nasceu como periferia planejada, mas insuficientemente servida. (PDLI, 1969; Monte, 2010; Silveira et al., 2018)
Final dos anos 1960 e início dos anos 1970 - De conjunto habitacional a bairro
Benilton Lacerda propõe uma distinção importante: o Estado construiu o conjunto, mas os moradores construíram o bairro. A transformação ocorreu pela ocupação progressiva das casas, pelas conversas nas quadras, pela ajuda mútua, pelas visitas religiosas e pela formação de grupos comunitários. O Parque Piauí deixou de ser apenas uma sequência de casas pré-construídas e passou a ser um espaço de pertencimento, sociabilidade e reivindicação. (Lacerda, 2013)
1970–1973 - Equipamentos urbanos iniciais

A dissertação de Lacerda registra imagens do bairro nos primeiros anos, incluindo casas do conjunto em 1970, Mercado Público Lourival Lira Parente em 1971, quadra de esporte em 1972, estádio/campo de futebol em 1973 e Complexo Escolar Cícero Portela Nunes em 1973. Esses registros indicam que o bairro começou a receber equipamentos de abastecimento, lazer, educação e sociabilidade ainda na fase inicial de consolidação. (Lacerda, 2013)
1971 - Mercado Público Lourival Lira Parente
A existência do Mercado Público em 1971 é um dado relevante porque indica a formação de uma economia cotidiana local. O mercado ajudou a organizar abastecimento, circulação de moradores e pequenos serviços, funcionando como equipamento de centralidade interna do bairro. (Lacerda, 2013)
1972–1977 - Atuação do padre Sandro Spinelli
O padre Sandro Spinelli chegou a Teresina em 1972, vindo de Verona, e atuou no Parque Piauí até 1977. Segundo Lacerda, ele construiu o templo religioso do conjunto, residiu no bairro e desenvolveu uma ação evangelizadora consistente junto à comunidade. Sua presença fortaleceu a articulação entre fé, vida cotidiana e participação comunitária. (Lacerda, 2013)
Década de 1970 - Comunidades eclesiais, grupos de jovens e consciência comunitária
A atuação da Paróquia São João Evangelista, influenciada pelo catolicismo progressista e pela Teologia da Libertação, contribuiu para a formação de grupos de evangelho, grupos de jovens, conselhos comunitários e práticas reivindicatórias. O bairro passou a reunir moradores, religiosos, artistas, professores, estudantes, sindicalistas e militantes em torno de pautas sociais. (Lacerda, 2013; Silva, 2013; Sousa, Perez e Viana, 2020)
Década de 1970 - Parque Piauí como bairro de cultura política
O Parque Piauí tornou-se espaço de música de protesto, teatro, imprensa alternativa e mobilização juvenil. Paulo Ricardo Muniz Silva identifica o bairro como um lugar propício à produção de manifestações artísticas de teor contestatório, articulando juventude, música, literatura, teatro e crítica social. (Silva, 2013)
O Festival de Música Popular do Parque Piauí, FESPAPI, teve início em 1975, organizado por moradores do bairro. O festival surgiu como espaço para novos compositores e intérpretes, inserindo o Parque Piauí na rede musical urbana de Teresina. (Medeiros, 2014)
Williams Costa informa que o FESPAPI começou por volta de 1975 e seguiu até aproximadamente 1978, passando depois por um período de interrupção. Essa informação ajuda a dividir o festival em fases: uma primeira etapa nos anos 1970 e uma retomada nos anos 1980. (Costa, 2010 apud Silva, 2013)
Segunda metade da década de 1970 - AMPAPI e CSU como espaços culturais
A primeira edição do FESPAPI ocorreu na Associação dos Moradores do Parque Piauí, a AMPAPI. As edições seguintes passaram para o Centro Social Urbano, o CSU. A organização dependia de patrocínios locais, apoio institucional e soluções improvisadas para aparelhagem sonora. (Silva, 2013; Medeiros, 2014)
O Parque Piauí aparece como território pioneiro de organização popular. Segundo estudos citados por Sousa, Perez e Viana, a primeira manifestação pública de protesto do Primeiro de Maio no Piauí ocorreu no bairro, em 1977. A data deixou de ser apenas comemorativa e passou a funcionar como oportunidade de denúncia e reivindicação dos trabalhadores. (Silva, 2000 apud Sousa, Perez e Viana, 2020)
1977 - Ampliação do bairro
Matéria do Portal O Dia registra que o bairro foi ampliado em 1977. (Alves, 2024)
1977 - 1983 - Reservatórios e abastecimento de água
A ampliação da infraestrutura de abastecimento de água aparece como etapa decisiva na consolidação da zona sul. Jurandir Lima registra a implantação de estações de tratamento e reservatórios, incluindo estruturas no Parque Piauí. Em 1983, o Jornal do Piauí noticiou reservatórios destinados à área alta de Teresina, incluindo Parque Piauí, Saci, Lourival Parente, Redenção, Tabuleta e São Pedro. (Lima, 2016; Jornal do Piauí, 27 jan. 1983 apud Lima, 2016)
1979 - Apoio às trabalhadoras da Fábrica de Castanha
Lacerda registra que, no final de 1979, coordenadores dos grupos de jovens ligados à Igreja Católica do Parque Piauí ajudaram a promover uma paralisação de três dias na Fábrica de Beneficiamento da Castanha de Caju, situada no Distrito Industrial, próximo ao bairro. As trabalhadoras reivindicavam salário justo e melhores condições de trabalho. (Lacerda, 2013)
1979 - 1984 - Jornal Alternativa

A dissertação de Lacerda registra vários exemplares do jornal Alternativa, datados entre 1979 e 1984, produzidos no próprio bairro. Esse material indica uma cultura política escrita, local, comunitária e vinculada aos movimentos populares do Parque Piauí. (Lacerda, 2013)
1979–1990 - Clube dos 100 e sociabilidade recreativa
A Sociedade Recreativa Clube dos 100 foi fundada em 1979, na Avenida Marechal Juarez Távora, no Parque Piauí. Nas décadas seguintes, o clube aparece na memória de antigos frequentadores como espaço de bailes, festas, carnaval, forró, reggae, shows populares e lazer comunitário. Comentários reunidos em registro memorialístico digital mencionam frequência ao clube em 1987, bailes de carnaval, apresentações de artistas como Beto Barbosa, Festa do Caju, Festival do Sorvete e lembranças associadas à Moby Dick, compondo um circuito de sociabilidade juvenil e recreativa da Zona Sul. Embora essas informações dependam de relatos dispersos, elas indicam a permanência do Clube dos 100 como lugar de memória afetiva do Parque Piauí. (Mapa das OSC, 1979; Francílio Henrique, 2025)
Em 1981, o FESPAPI já estava em sua sétima edição. Isso confirma que o festival não foi evento isolado, mas experiência cultural de longa duração no bairro. Em 11 de julho, o Jornal O Dia publicou chamada sobre o FESPAPI: “FESTAPI começa hoje à noite”. (Jornal O Dia, 11 jul. 1981 apud Medeiros, 2014)
1982 - Compacto do VI FESPAPI
Hermano Carvalho Medeiros registra a existência de um compacto do VI FESPAPI entre as produções fonográficas teresinenses. Esse dado mostra que o festival do Parque Piauí gerou registro sonoro e circulação material para além do evento presencial. (Medeiros, s.d.)
1982 - Disco da VII edição do FESPAPI
A sétima edição do festival resultou no disco VII FESPAPI: Festival de Música Popular do Parque Piauí, lançado pela Discos Sapucaia, com quatro músicas vencedoras. O vinil dá materialidade à memória musical do bairro. (Medeiros, 2014)
Década de 1980 - Parque Piauí nos trajetos culturais da cidade
Raimundo Nonato Lima dos Santos registra, a partir do depoimento de Ací Campelo, que jovens e artistas caminhavam até o Parque Piauí para frequentar o CSU, considerado um “grande point cultural”. O espaço recebia festivais de música, teatro e grupos culturais, sendo reconhecido como lugar de debate sobre cultura. (Campelo, 2015 apud Santos, s.d.)
Década de 1980 - Teatro e grupos culturais no bairro
Segundo Ací Campelo, o Parque Piauí tinha dois ou três grupos de teatro e realizava festivais de música dos quais saíram vários cantores piauienses. Esse dado reforça o papel do bairro como polo cultural da zona sul, articulado à música, teatro e sociabilidade juvenil. (Campelo, 2015 apud Santos, s.d.)
Década de 1980 - Mobilidade precária e caminhadas urbanas
A precariedade do transporte coletivo fazia com que jovens, artistas e estudantes circulassem pela cidade a pé, de bicicleta, táxi ou carona. O deslocamento até o Parque Piauí mostra que, apesar da distância, o bairro integrava uma cartografia cultural vivida corporalmente pela juventude teresinense. (Santos, s.d.)
Década de 1980 - Adensamento e ocupação dos vazios urbanos
A partir da década de 1980, vazios urbanos e áreas livres do Parque Piauí passaram a ser loteados e ocupados. Esse processo contribuiu para o adensamento do bairro e para a redução de áreas verdes em relação ao projeto original. (Silveira et al., 2018; Lima, 2016)
Década de 1990 - Integração ao sítio urbano consolidado
Na década de 1990, conjuntos habitacionais construídos nas décadas anteriores, como Parque Piauí, Bela Vista, Promorar e Saci, já estavam integrados ao tecido urbano de Teresina. O bairro passou a ser reconhecido como espaço habitacional e comercial tradicional da zona sul. (Lima, 2016)
1991 - 2010 - Crescimento comercial e transformação do uso residencial
Entre 1991 e 2010, a população do Parque Piauí diminuiu, enquanto comércio e serviços se expandiram. Silveira et al. associam esse processo à valorização dos lotes e à conversão de residências em imóveis comerciais e de uso misto, sobretudo nas vias de maior circulação. (Silveira et al., 2018; IBGE, 2010)
2010 - Bairro consolidado
Em 2010, o Parque Piauí possuía 11.307 habitantes e 3.024 domicílios. O bairro já apresentava abastecimento de água, energia elétrica e coleta de lixo, embora o esgotamento sanitário ainda fosse predominantemente por fossa séptica. (IBGE, 2010; SEMPLAN, 2016; Silveira et al., 2018)
2015 - Movimento Ocupa Praça
Em 2015, moradores se mobilizaram contra a construção de um terminal de ônibus na Praça das Ações Comunitárias. A ocupação começou após passeata pelo bairro e durou nove meses. O movimento articulou defesa ambiental, crítica ao processo decisório da política de mobilidade urbana e reivindicação da praça como espaço comunitário. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
A ocupação da Praça das Ações Comunitárias começou em 4 de outubro de 2015. A rede de apoiadores incluiu moradores, REAPI, coletivo Ocuparte, SINDISERM, estudantes da UFPI e UESPI, associações de outros bairros, ambientalistas, entidades de assistência jurídica e militantes políticos. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
A defesa da Praça das Ações Comunitárias pode ser compreendida à luz dos estudos sobre espaços livres públicos em territórios populares. Praças e parques oferecem lazer gratuito, convivência, práticas de saúde, encontros comunitários e articulação de interesses coletivos. Assim, o Ocupa Praça defendia não apenas árvores, mas um equipamento urbano essencial ao cotidiano do bairro. (Sousa, Perez e Viana, 2020; Lopes et al., 2023)
2016 - Vitória do Ocupa Praça
O terminal de ônibus não foi construído na Praça das Ações Comunitárias, sendo instalado em outro ponto do bairro. A praça e suas árvores foram preservadas após nove meses de mobilização. O episódio atualizou uma tradição de organização comunitária já presente na história do Parque Piauí desde os anos 1970. (Sousa, Perez e Viana, 2020)
2016 - 2018 - Parque Piauí como subcentro da zona sul
O bairro passou a ser interpretado como subcentro da zona sul, pela concentração de comércio, serviços, escolas, mercado público, equipamentos institucionais e terminal de integração. Nesse sentido, o Parque Piauí deixou de ser periferia residencial distante e passou a funcionar como centralidade secundária em relação ao centro tradicional de Teresina. (Villaça, 1998; Lima, 2016; Silveira et al., 2018)
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ALVES, Emelly. Da terra ao concreto: a história da construção do Parque Piauí. Portal O Dia, Teresina, 14 fev. 2024.
BEZERRA, José Pereira. Anos 70: Por que essa lâmina nas palavras? Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1993.
CAMPELO, Ací. Depoimento concedido a Raimundo Nonato Lima dos Santos. Teresina, 2015. Apud Santos, s.d.
CARVALHO, Alisson. A Casa do Hip Hop em Teresina. Geleia Total, 20 jan. 2020.
CAVALCANTE, Aldenora. A periferia é o centro! Revestrés, 15 ago. 2017.
COSTA, Williams. Entrevista concedida a Paulo Ricardo Muniz Silva. Teresina, 23 jun. 2010. Apud Silva, 2013.
ENTRECULTURA. A praça é do povo! Teresina, 2016.
JORNAL DO PIAUÍ. “AGESPISA conclui reservatórios”. Teresina, 27 jan. 1983, p. 3. Apud Lima, 2016.
LACERDA, Benilton Torres de. O altar politizado: o bairro Parque Piauí (Teresina-PI) e a ação da Igreja Católica na organização dos movimentos populares (1968–1985). Dissertação de mestrado. Universidade Federal do Piauí, Teresina, 2013.
LIMA, Jurandir Gonçalves. Memórias Afetivas de Teresina: tensões entre tradição e modernidade no processo de modernização da cidade (1970–2000). Tese de doutorado. Universidade Federal de Pernambuco, Recife, 2016.
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