"o que mais junto se vai (ou o que esse rio traz ou leva em seu ventre)", por Adriano Lobão Aragão




um rio não corre sozinho
leva o que pode encontrar
seja peixe, mato ou lixo
seja um homem ao afogar

sua comunidade móvel
de vida e morte se faz
não há como distinguir
o que mais junto se vai

são pedaços de pau e folha
enganchos pra linha de mão
ou uma rede que se lança
e só puxa podridão

esse rio nos traz a vida
no percurso da existência
certos peixes, certa vida
na casa em que há mais carência

esse rio nos traz a vida
no passar e no existir
como a canoa se desgarra
pra pescar um surubim

esse rio recebeu nomes
diversos em outros tempos
recebeu também inúmeros
exploradores no ventre

esse rio leva seus nomes
leva gente e leva tempo
pra saber o que possui
ou dele o que nós temos

de sua serena canção
de água, movimento e medo
quando um náufrago afoga
nessa água seu desespero

às vezes em troca leva
um barco, quem sabe a vida
mas continua o itinerário
no que perde a autonomia

foi no ano de mil quinhentos
e cinquenta e quatro, antes
de naufragar que Luís
de Melo chegou ao rio grande

encontra-se esse rio grande
quando chega-se ao limite
da água e toda imensidão
que apenas ao mar transmite

percorrendo essas águas
na via de seu naufragar
Nicolau de Resende entre
nativos encontrou um lar

onde se chega e se vai
sem sossego mas sem mágoa
onde existe vida e morte
só existe lar onde há água

e Pero Coelho de Sousa
veio lá do Ceará
nos limites de suas terras
suas águas marcar

Francisco José canoeiro
na luta de seu caminho
afogou-se com a rede
na sobrevivência do ofício

no fim do dia de trabalho
outro Francisco foi morto
a mão covarde atirou
no homem e no rio seu corpo

não é caixão que se ganhe
nem chegará o mar ganhar
não reclamou enquanto vivo
nem morto reclamará

morreu esse homem na luta
diária contra seu destino
como tantos morrem logo
sem nem saber o motivo

este rio marcado passa
rastejando como um corte
sabendo o rumo da vida
o mesmo rumo da morte

Chiquinho, menino esperto
e ativo, não completou
travessia pro Maranhão
o rio seu nado levou

perdeu sua casa e uma filha
tudo que tinha seu Chico
levado à força nas águas
da enchente de 85



O RIO: COLETÂNEA DE POEMAS SOBRE O PARNAÍBA (2ª edição)
Editor: Gilson Caland
Teresina: Fundação Quixote, 2022


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