"CARTOGRAFIAS DO PRAZER: Boemia e Prostituição em Teresina (1930 – 1970)", por Bernardo Pereira de Sá Filho

Em "Cartografias do prazer: boemia e prostituição em Teresina (1930–1970)", Bernardo Pereira de Sá Filho estuda a vida noturna da cidade por meio de espaços e personagens pouco presentes na história oficial. Praças, cinemas, clubes, bares, forrós, cabarés e zonas de prostituição aparecem como lugares de lazer, trabalho, sociabilidade e conflito. A pesquisa reúne textos literários, músicas, processos criminais, inquéritos policiais, relatórios médicos, fotografias e entrevistas.
O autor identifica diferentes circuitos noturnos. A Praça Pedro II, os cafés, os cinemas e os clubes concentravam formas de lazer ligadas ao centro da cidade. A Paissandu tornou-se a principal zona boêmia e de prostituição, enquanto o Morro do Querosene reunia estabelecimentos frequentados sobretudo pelos setores populares. Havia ainda áreas mais pobres, como Palha de Arroz, Móio de Vara, Canal de Suez, Ema, Purgal e Rala-Pau. Esses territórios estavam ligados pela circulação de prostitutas, clientes, cafetinas, gigolôs, músicos, garçons, militares e outros trabalhadores.
Os depoimentos de Maria Tijubina, Gerusa Santos, Luís Cavaquinho, Cavalheiro, Carrola, Honorata e outros entrevistados recuperam festas, relações amorosas, formas de trabalho, conflitos e características dos estabelecimentos. A dissertação também examina a vigilância policial, as normas relativas à honra e à virgindade, os processos por sedução, a violência e as chamadas “doenças do mundo”. O corpo aparece como lugar de prazer, controle, doença, reputação e poder.
Nas considerações finais, Sá Filho afirma que a história de Teresina não pode permanecer restrita ao centro, às elites e aos acontecimentos oficiais. Prostitutas, malandros, gigolôs, boêmios e trabalhadores da noite também participaram da construção da cidade. A prostituição é apresentada como experiência marcada por violência e exclusão, mas também como forma de sobrevivência, sociabilidade e, para algumas mulheres, alternativa ao casamento e à dependência econômica. Embora condenada pelo discurso moral, sua existência foi tolerada pelo Estado e pela sociedade, que reprimiam principalmente os excessos e as perturbações da ordem.

O autor identifica diferentes circuitos noturnos. A Praça Pedro II, os cafés, os cinemas e os clubes concentravam formas de lazer ligadas ao centro da cidade. A Paissandu tornou-se a principal zona boêmia e de prostituição, enquanto o Morro do Querosene reunia estabelecimentos frequentados sobretudo pelos setores populares. Havia ainda áreas mais pobres, como Palha de Arroz, Móio de Vara, Canal de Suez, Ema, Purgal e Rala-Pau. Esses territórios estavam ligados pela circulação de prostitutas, clientes, cafetinas, gigolôs, músicos, garçons, militares e outros trabalhadores.
Os depoimentos de Maria Tijubina, Gerusa Santos, Luís Cavaquinho, Cavalheiro, Carrola, Honorata e outros entrevistados recuperam festas, relações amorosas, formas de trabalho, conflitos e características dos estabelecimentos. A dissertação também examina a vigilância policial, as normas relativas à honra e à virgindade, os processos por sedução, a violência e as chamadas “doenças do mundo”. O corpo aparece como lugar de prazer, controle, doença, reputação e poder.
Nas considerações finais, Sá Filho afirma que a história de Teresina não pode permanecer restrita ao centro, às elites e aos acontecimentos oficiais. Prostitutas, malandros, gigolôs, boêmios e trabalhadores da noite também participaram da construção da cidade. A prostituição é apresentada como experiência marcada por violência e exclusão, mas também como forma de sobrevivência, sociabilidade e, para algumas mulheres, alternativa ao casamento e à dependência econômica. Embora condenada pelo discurso moral, sua existência foi tolerada pelo Estado e pela sociedade, que reprimiam principalmente os excessos e as perturbações da ordem.
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A pesquisa de Bernardo Pereira de Sá Filho permite destacar depoimentos que ajudam a recompor a vida noturna de Teresina entre 1930 e 1970. As falas de Maria Tijubina, Gerusa Santos, Luís Cavaquinho, Cavalheiro e Carrola registram lugares, práticas e personagens ligados à Paissandu, ao Mafuá, à Barrinha, ao Morro do Querosene e aos forrós populares.
Maria Tijubina

Maria Ambrósio da Silva, conhecida como Maria Tijubina, nasceu em Barras, chegou a Teresina em 1954 e viveu diferentes momentos da noite teresinense. Morou na Paissandu, mudou-se para o Mafuá, administrou um cabaré e depois passou a vender comida.
Ao recordar a Palha de Arroz, Tijubina destacou a pobreza do lugar:
“A Palha de Arroz, a Barrinha, Ave Maria! Era tudo perebal. Era muito triste aquela vida delas lá... muito chué! Muito pobre, muito sujo. Lá, era até de palha, era de taipa. Mas a Paissandu toda vida, foi boa e famosa, mas a Barrinha...”
No Mafuá, descreveu o Canal de Suez como uma área cheia de pequenos cabarés e quartos alugados. A mulher entrava com o cliente, pagava pelo cômodo e saía. Apesar da precariedade material, sua memória do bairro também era marcada pela animação:
"Festa dia e noite! [...] Mas era animado! Era bonito mesmo! E... não tinha confusão. Essas confusão...Era mato aquela avenida Miguel Rosa. Ali era mato até o quartel do 25ºBC, de um lado e de outro, com certeza. Mato mesmo. Aí rodeava ali , em frente ao Cemitério São José e na esquina tudo era quebra...Nego ía...era difícil ter briga. Era difícil ter confusão. A gente andava era só mesmo. Agora, a gente não pode ir na ponte. É uma tristeza".
Tijubina recordou antigas companheiras como Ana Maria, Tina, Luíza e Creusa. Sobre o destino dessas mulheres, afirmou:
“Morreram quase tudo na pior!”
Sua trajetória foi diferente. Depois de deixar a prostituição, tornou-se proprietária de um ponto de alimentação conhecido como Tijubina do Mafuá. O lugar era frequentado por jogadores de futebol, jornalistas, militares, políticos, intelectuais, artistas e universitários. Entre os pratos servidos estavam panelada, mão-de-vaca, sarapatel e buchada.
Gerusa Santos
Gerusa Santos viveu na Paissandu como prostituta e posteriormente tornou-se gerente de cabaré. Sua memória reúne festas, música, relações amorosas, conflitos e prisões.
Ela dizia ter sido presa muitas vezes porque era “danada pra brigar”. O episódio mais conhecido de sua vida envolveu Silvério, homem cuja formação profissional ela ajudara a financiar. Quando soube que ele se casaria com outra mulher, Gerusa entrou na Igreja de Nossa Senhora das Dores durante a cerimônia e atacou os noivos com lâminas.
“Na hora do casamento eu cortei ele e cortei ela.”
Gerusa também recordava com orgulho as festas realizadas em seu aniversário, animadas pela Orquestra Guanabara, pelo Jazz do 25º Batalhão de Caçadores e pelo Jazz da Polícia Militar. Os conjuntos executavam sambas, rumbas, boleros, tangos, xotes e baiões.
Nos carnavais, as mulheres da Paissandu participavam do corso em caminhões ornamentados. Durante alguns dias, aquelas mulheres, geralmente marginalizadas, ocupavam posição de destaque nas ruas da cidade.
Luís Cavaquinho
Músico e antigo guarda civil, Luís Cavaquinho conheceu bares, forrós, cabarés e casas de jogos. Ele descreveu o Bar Carvalho como uma grande casa com restaurante, sinuca e torrefação de café. O Café Avenida, segundo sua lembrança, recebia políticos e frequentadores de maior poder aquisitivo.
Ao falar do Sete Tabacos, situado na Barrinha, afirmou que o lugar possuía quartos, salão de dança e um pequeno botequim:
“Não era bar, era boteco. Camarada dançando ali chegava ali: “Bota uma cana aí!” O sujeito botava no balcão ali, você tomava e ía pro salão. [...] Era simples, só que tinha uma entrada assim, e tinha um corredor. Aí só sabia mesmo quem já tinha o costume de freqüentar lá, que sabia que lá era um comprimento; porque lá atrás era um movimento de salão de festa, de dança, de um botecos. Não existia esse negócio de cerveja nada, era só papuda, cachaça mesmo.”
Cavaquinho também recordou o Forró do Pedro Toco, o Cassino Quitandinha e as apresentações musicais realizadas nos cabarés. Seus depoimentos mostram que esses estabelecimentos não eram apenas locais destinados ao sexo. Neles havia música, dança, bebida, jogos e diferentes formas de sociabilidade.
Cavalheiro
Antônio Pereira da Silva, conhecido como Cavalheiro, nasceu e viveu na Paissandu. Trabalhou arrumando quartos e conviveu com prostitutas, hóspedes, homossexuais e trabalhadores dos cabarés e hotéis.
“Aqui nessa Paissandu, quando era Paissandu mesmo, era cheio de cabaré.”
Cavalheiro cita o Cabaré Alabama e um hotel pertencente a uma mulher chamada Dulce. Também recorda Chica Pelada, Paminu, Marilu, Feijão, Riba e Benjamim. Alguns trabalhavam nos hotéis e mantinham relações com viajantes hospedados na região. Seu depoimento registra a presença de relações homoafetivas e de prostituição masculina, aspectos pouco documentados em outras fontes sobre a cidade.
Carrola e os forrós populares
Francisco Alves de Sousa, o Carrola, falou sobre festas familiares e forrós da periferia. No bairro Porenquanto, o Forró de Manoel Eugênio funcionava aos domingos e recebia mulheres e clientes vindos da Estação, do Morro do Querosene e do Móio de Vara.
“Só de rapariga mesmo. Só ia pra lá quem tivesse negócio. Sabia que o forró era de gato [...] Lá era confusão mesmo, quando era seis horas da tarde saia todo mundo bebo. Aí caía pano de faca, era uma correria, era tudo. Ali juntava os gatos da Estação, juntava os gatos do Morro do Querosene e do Móio de Vara e iam tudo pra lá... Quando entrava soldado do 25ª BC, solteiro e da Polícia era confusão.”
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Dissertação apresentada por Bernardo Pereira de Sá Filho, em 2026, ao Programa de Pós- Graduação em História do Brasil da Universidade Federal do Piauí como requisito parcial para obtenção do título de mestre em História do Brasil, sob a orientação da Profª Drª Claudete Maria Miranda Dias
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