"A mudança para Teresina", por Arnaldo Boson Paes




Em fevereiro de 1980, Agnelo e Lourdes chegaram a Teresina com os quatro filhos mais velhos. Embora tenha tido toda a orientação dos primos Adelino e Erotides, ele estava consciente da grande responsabilidade que passava a abraçar, pensando também na adaptação dos filhos a uma cidade estranha, não tão grande quanto Salvador, Brasília ou São Paulo, mas, seguramente, bem maior que Campo Alegre de Lourdes.

Se o casal não deixava de estar preocupado, já que se descortinava uma vida nova, o mesmo não acontecia com Maria do Carmo, Agnaldo, Maristela e Arnaldo: para os jovens, toda novidade é vista como perspectiva, como sonhos embalados por uma melodia com sabor de final feliz; é o tempo de esperanças, de ideais e de planos.

No início, por poucos dias, todos ficaram hospedados no Hotel São Salvador, localizado na Praça Conselheiro Saraiva. Agnelo e Lourdes logo cuidaram para alugar uma casa para os meninos. Depois de algumas pesquisas acharam por bem alojar os filhos numa casa situada na Rua Anísio de Abreu, bairro Marquês, zona Norte.

Depois de cumprir com os trâmites necessários para o aluguel do imóvel, uma nova tarefa os aguardava: mobiliar a casa, no sentido de que os filhos ficassem bem acomodados e não sentissem tanta falta da casa de Campo Alegre de Lourdes. É verdade que no começo houve certas dificuldades, notadamente de adaptação, mas era a saudade do que ficara para trás, ao mesmo tempo em que o entusiasmo do novo dava sequência aos dias.

Anos depois, a família recordaria com grata lembrança esses anos de estudos e de preparação para o futuro, lembrando que Erotides e Adelino foram essenciais para a permanência dos meninos em Teresina: uma mão amiga sempre disposta a ajudar no que fosse possível, o que era de grande importância para os filhos de Agnelo e Lourdes, agora distantes do seio da família.

Agnaldo, Maristela e Arnaldo foram matriculados no Colégio Helvídio Nunes – localizado na Rua Magalhães Filho, no bairro Marquês de Paranaguá – enquanto Maria do Carmo cursava o preparatório para o vestibular, no Andreas da Praça Rio Branco.

O Colégio Helvídio Nunes fazia parte da rede pública estadual de ensino, mas nos anos 1980 a escola pública nem de longe lembrava o abandono a que chegou nos dias atuais: professor ensinava e aluno estudava. Muitos intelectuais, pessoas que mais tarde se destacaram na vida profissional, saíram das escolas públicas. Do Colégio Helvídio Nunes, os meninos foram transferidos para o Colégio Estadual Zacarias de Góis, o Liceu Piauiense.

Após se certificar de que os filhos estavam bem acomodados, estudando, Agnelo retornou com Lourdes para Campo Alegre.

Na capital piauiense, os meninos levavam a vida como todos os jovens daquela época: além dos estudos, frequentavam a missa na Igreja do Amparo, onde moças e rapazes se encontravam, após a celebração, para namorar ou simplesmente trocar olhares – em passeios ao redor da igreja, lentamente, rapazes e moças em sentido contrário para entreolharem-se, flertarem e, quem sabe, dali sair namoro.

Ainda não havia os shoppings, então o chamado cinema de rua era a opção para os que gostavam de ver seus astros na telona, as aventuras, os romances que acalentavam uma juventude ainda envolta em aura de inocência: os cines Rex, na Praça Pedro II, e o Royal, na Rua Coelho Rodrigues, eram locais em que moças e rapazes também se encontravam para conversar, namorar, trocar ideias.

Aos domingos, os filhos de Agnelo e Lourdes, igualmente aos colegas e estudantes em geral, passeavam pela feirinha que acontecia na Praça Saraiva, com suas barraquinhas e atrações culturais. As discotecas Moby Dick, no Parque Piauí, Aquarius, no bairro Piçarra, e a Doce Vida, no Jóquei, movimentavam os embalos de sábado à noite, enquanto o bar Nós e Elis, bairro Ininga, reunia os intelectuais, a rebeldia juvenil que contestava, que sonhava um novo mundo.

Foi nessa Teresina que Agnelo e Lourdes deixaram os filhos mais velhos para começarem a dar os primeiros passos sozinhos, não mais sob a sombra da casa paterna. A saudade inundava o coração do casal, contudo não se tinha tantas preocupações quanto ao comportamento dos meninos, pois bem sabiam a qualidade do barro com que os filhos foram moldados: a confiança, o respeito e a honradez foram valores cultivados e assimilados.

Sempre presentes na vida dos sobrinhos, os tios Adelino e Erotides, com suas influências, conseguem empregar os jovens estudantes em repartições públicas: Maria do Carmo, no Detran, e Agnaldo, na Ceasa. Em qualquer situação, Adelino e Erotides estavam lá, presentes, procurando contribuir com conselhos, com uma palavra amiga, dando a certeza de que eles não estavam sozinhos.

Quando percebeu que os filhos estavam bem instalados, Agnelo e Lourdes retornaram para Campo Alegre, após alguns meses. Contudo, a saudade foi bem mais forte que o imaginado e, em junho de 1980, resolveram residir em Teresina, indo morar com os filhos numa casa localizada na Rua Rui Barbosa, nas imediações da Rua Lizandro Nogueira, centro da Cidade.

Com o sangue de comerciante correndo nas veias, Agnelo abre um restaurante na Rua Rui Barbosa, a 100 metros da Praça Rio Branco, exercendo essa atividade até meados de 1981: era o Castelão, bar e restaurante, contemplado com a mesma dedicação que o destacou e o fez referência em Campo Alegre de Lourdes, durante tantos anos.

Depois de idas e vindas entre Campo Alegre de Lourdes e Teresina, em 1993 Agnelo e sua família passam a residir numa ampla casa, no bairro Morada do Sol, na Zona Leste. Com a esposa Lourdes, participa ativamente das atividades da Igreja de São Cristóvão. Nessa época, começa a compreender a importância e o acerto da decisão de investir na educação dos filhos, percebendo claramente que toda a dedicação e sacrifício não foram em vão. A semente plantada começava a germinar.



Arnaldo Boson Paes, em
AGNELO PAES LANDIM - Uma vida, muitas histórias
Teresina: 2015


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