"EVOCAÇÃO", por Clóvis Moura
Mergulhar não no rio da infância
mas no rio que a recorda e fixa.
Naquelas águas há tempo e há silêncio:
um pedaço de nós, outro de peixes.
No barro de suas margens há cadáveres
que ficam, quando morrem naufragados.
Há candeias na noite,
há barcas rasas
que conduzem os finados para as margens.
Há balsas sem destino; os índios cantam
à noite; há uma fogueira e uma caçada.
Na noite uma virgem perde o sono
que não chega, e no caldo escorre o hímen.
(Nossa Senhora tem uma promessa
se ela casar depois do acontecido.)
Há partos e um mistério. Quase sempre
pare-se à noite, não se sabe a causa.
O padre, o batizado, o sacramento
e de novo o pecado: eis a cidade.
No rio nos banhamos, somos peixes
e ele nos prende: aranha que deslumbra.
Suas águas são noites, plenilúnios
e cantigas de rodas nas retinas.
(Hoje a aurora é triste e nesse rio
somente a morte tem teara e cetro).
Mas os peixes secaram nessa noite:
olhos de pedra, bocas sem palavra
escamas de mistério conhecido.
Nada mais.
Clóvis Moura, em
ARGILA DA MEMÓRIA
Edições Corisco (2ª edição)
Teresina/PI, 1982
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