“Cangaceiro” destrói redação de jornal no centro de Teresina e mata vigilante", por Rodrigo M Leite




Na madrugada de 23 de outubro de 1946, José de Arêa Leão, conhecido como Zezé Leão, invadiu, acompanhado de outros homens armados, a redação do jornal O Piauí, localizada na Rua Coelho Rodrigues, nas proximidades do antigo Cine Royal, no centro de Teresina. O grupo destruiu máquinas, móveis e equipamentos do periódico. Durante a ação, o vigilante Miguel Pedro de Sousa foi morto a tiros e facadas.

O episódio ficou conhecido como empastelamento do jornal O Piauí. Alberto Dines lembra que, nos dicionários Aurélio e Houaiss, o verbo empastelar envolve tanto a mistura de caracteres tipográficos quanto a invasão de gráfica ou redação para inutilizar o trabalho em curso e danificar equipamentos e materiais. Para Dines, o empastelamento tornou-se uma forma violenta de calar veículos opositores. Destruíam-se tipos, impressoras, estoques de papel e, em alguns casos, o próprio prédio. No caso do O Piauí, o empastelamento assumiu sentido político direto. Destruir a redação era tentar interromper sua circulação e silenciar sua atuação oposicionista.

Segundo Francisco Chagas O. Atanásio, o ato deve ser compreendido no contexto das tensões entre PSD e UDN na década de 1940. O jornal O Piauí, ligado à oposição udenista, publicava críticas ao governo e denunciava os incêndios criminosos que atingiam casas de palha em Teresina. Nesse ambiente de confronto, Zezé Leão teria atuado como força de intimidação política, mobilizada para silenciar adversários e advertir a oposição.

O ataque ao jornal não foi um crime isolado. Ele ocorreu em uma cidade marcada pelo medo, pela imprensa partidária e por disputas que ultrapassavam os gabinetes políticos. Teresina vivia sob o impacto dos incêndios em casas de palha. Em texto já reunido no Musa Esquecida, José Ribamar Garcia recorda que a cidade estava “sob o terror dos incêndios”, com dias em que ocorriam três ou quatro casos. A suspeita política cercava esses episódios. Autoridades atribuíam os incêndios à oposição, enquanto opositores afirmavam que o governo queria livrar a cidade dos pobres queimando suas casas.

No acervo do Musa Esquecida, as casas de palha aparecem como uma das imagens mais persistentes da Teresina antiga. Em A. Tito Filho, a cidade “tinha mais casas de palha do que de telhas”, registro que ajuda a dimensionar a presença material desse tipo de moradia na paisagem urbana. Em Gregório de Moraes, a casa de palha surge como espaço de pobreza, intimidade e afeto. Já em Elias Paz e Silva, a imagem se desloca para a violência. “O fogo o terror nas casas de palha” aparece como sinal de uma cidade que redistribui os espaços da fome. Em Airton Sampaio, os incêndios retornam como enigma político e social. Quem mandava queimar os casebres. Governo, oposição, especulação, polícia. A pergunta permanece como ferida aberta na memória urbana.

Essa memória ganha forma trágica em "A cidade em chamas", de Afonso Lima, poema dedicado aos “filhos de ninguém”, vítimas da cidade destruída, da especulação imobiliária e da maldade dos homens. O poema transforma os incêndios em cena de dor coletiva. Palhas tremem, mães choram, objetos domésticos se perdem e corpos se misturam às cinzas da cidade.

Zezé Leão não era propriamente um cangaceiro no sentido histórico clássico. Era filho de família latifundiária, ligado aos Arêa Leão, grupo de forte presença política no Piauí. Recebeu patente de capitão da Brigada Militar após a Revolução de 1930 e teve sua fama associada a conflitos de terra, jagunçagem e violência política. Por isso, a expressão “Lampião do Piauí” deve ser lida como construção simbólica. Ela dizia menos sobre pertencimento efetivo ao cangaço e mais sobre a imagem pública de valentia, medo e brutalidade que passou a cercar seu nome.

Arimatéa Carvalho, em texto publicado no Jornal Meio Norte e já incorporado ao acervo do Musa Esquecida, observa justamente essa diferença. Zezé Leão era latifundiário e membro de família tradicional. Lampião, por outro lado, era um nômade errante. A comparação, portanto, funciona mais como signo de temor do que como classificação histórica. No mesmo texto, Arimatéa registra o episódio de destruição do jornal O Piauí por motivos políticos e lembra que sua vida permaneceu cercada de episódios nos quais história, memória e folclore se misturam.

Essa dimensão lendária atravessa outros registros do blog. Em “Theresina”, Geraldo Borges inscreve Zezé Leão em uma longa enumeração de lugares, personagens e assombrações urbanas. Poty Velho, Cabeça de Cuia, Rua Paissandu, Praça Pedro Segundo, Tabuleta, Piçarra, Bar Imperial e tantos outros nomes formam uma espécie de mapa afetivo da cidade. Nesse inventário, Zezé aparece não apenas como criminoso, mas como personagem incorporado à memória urbana de Teresina.

A presença de Zezé na cidade também passa pela zona boêmia da cidade antiga. Em “Teresina no passado”, Guaipuan Vieira narra o episódio da morte do tenente Wanderley no antigo bar do Zé Cazuza. A cena é significativa porque transforma o crime em ponto de passagem de um passeio pela cidade antiga. A Rua Paissandu, os cabarés, a Praça Pedro II, o antigo quartel, o Cine Rex e o Teatro 4 de Setembro aparecem como camadas de uma mesma Teresina lembrada.

A memória de Zezé Leão, porém, não pertence apenas a Teresina. Ábdon Eres da Silva Neto mostra que sua figura também aparece nas lembranças sobre os primeiros anos de Água Branca após a emancipação municipal. Entrevistados recordam sua presença aos domingos, acompanhado de capangas, bebendo em bares, brigando, surrando pessoas e atirando para cima.

Assim, o ataque ao jornal O Piauí revela mais do que a ação de um homem violento. Ele permite observar uma rede de conflitos que ligava imprensa, oligarquias, jagunçagem, incêndios urbanos e disputas partidárias. No centro de Teresina, a destruição de uma redação e a morte de um vigilante condensaram tensões que atravessavam a capital e o interior do Piauí.



Referências bibliográficas.


AFONSO LIMA. A cidade em chamas: poema trágico de um crime impune. Teresina: Multiservice, 2010;

ARIMATÉA CARVALHO. Zezé Leão, valente e temido. Jornal Meio Norte, Caderno Alternativo, Teresina, 9 ago. 1998;

ATANÁSIO, Francisco Chagas O. Notas sobre um “homem infame” e suas desventuras pela “terra maldita”: tensões sociais, conflitos políticos e cultura de violência no Piauí a partir das incursões de Zezé Leão (1940-1950). VI Simpósio Nacional de História Cultural, UFPI, Teresina;

BORGES, Geraldo. Theresina. Publicado no Musa Esquecida, via Piauinauta;

DINES, Alberto. Empastelamento, modo de emprego. Observatório da Imprensa, edição 405, 6 nov. 2006;

GARCIA, José Ribamar. A penitenciária. In: Imagens da Cidade Verde. Rio de Janeiro: Litteris, 2008;

MORAES, Gregório de. Casa de palha. In: Auroras Perdidas. Rio de Janeiro, 1970;

PAZ E SILVA, Elias. Ter é sina II. Publicado no Musa Esquecida, via Recanto das Letras;

SAMPAIO, Airton. Rubro sobre o verde ou sangue entre dois rios que se abraçam ou conto em cinco desatinos e um esboço de editorial. Publicado no Musa Esquecida, via blog do autor;

SILVA NETO, Ábdon Eres da. Encantos e desencantos na organização do recém-instalado município de Água Branca-PI (1954-1958). Revista Latino-Americana de História, v. 8, n. 21, jan./jul. 2019;

TITO FILHO, A. Teresina antiga. Jornal O Dia, 4 nov. 1988;

VIEIRA, Guaipuan. Teresina no passado. Publicado no Musa Esquecida, via AMLECE;


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