"A morte do carteiro e outras histórias - crimes e masculinidades em Teresina nas décadas de 1970 e 1980", por Hélio Secretário dos Santos







Comentário.


A dissertação "A morte do carteiro e outras histórias — crimes e masculinidades em Teresina nas décadas de 1970 e 1980", de Hélio Secretário dos Santos, analisa quatro crimes que tiveram ampla repercussão em Teresina. O estudo acompanha o assassinato do carteiro, ator amador e estudante Helzano Ferreira de Sá, ocorrido em 1977. Também examina o assassinato de Luiz da Costa Leite, funcionário da Caixa Econômica Federal, em 1983, a morte de Antonio Soares da Costa, conhecido como Chocolate, em 1984, e o desaparecimento de Valteuste Sampaio Melo, auditor-chefe da CEPISA, também em 1984.

O eixo comum desses episódios é a forma como a sexualidade das vítimas passou a orientar interpretações sobre os crimes. A polícia, a imprensa e a sociedade observaram não apenas os fatos violentos, mas também os lugares frequentados pelas vítimas, seus vínculos de amizade, seus ambientes de trabalho e suas formas de lazer. A própria dissertação afirma que, nos quatro casos, a sexualidade das vítimas foi peça fundamental para a investigação policial, assim como os lugares que frequentavam, seus colegas de trabalho, seus amigos e suas formas de lazer.

Mais do que reconstituir episódios criminais, a pesquisa permite observar uma Teresina noturna, atravessada por bares, ruas, avenidas, margens de rio, escritórios, motéis e zonas de circulação. O crime deixa de ser apenas ocorrência policial e passa a funcionar como índice da vida urbana. Essa leitura se aproxima da pesquisa de Pablo Josué Carvalho Silva, que analisou a noite teresinense dos anos 1970 a partir dos espaços de lazer, da urbanização, da circulação pelo centro e pelos bairros próximos, além dos discursos jornalísticos sobre medo, perigo e práticas consideradas indesejáveis.

A partir da dissertação de Hélio Secretário dos Santos, é possível traçar uma cartografia urbana desses crimes. Essa cartografia não corresponde apenas ao mapa físico dos acontecimentos. Ela reúne lugares, percursos e sociabilidades que ajudam a compreender como certos espaços de Teresina foram associados à noite, ao lazer, à suspeita e à vigilância moral.

No episódio envolvendo Helzano Ferreira de Sá, essa cartografia se concentra na noite do centro-sul de Teresina. O percurso passa pelo Bar do Leôncio, situado nas proximidades da Rua Coelho de Resende com a Rua Tiradentes, pelo bar O Amarelinho, localizado no cruzamento da Avenida Miguel Rosa com a Rua Coelho de Resende, e pelo caminho em direção ao prédio do DNOCS. A dissertação registra que Helzano passou pelo Bar do Leôncio, seguiu para o Amarelinho e que o corpo foi visto nas calçadas do DNOCS.

O Amarelinho ocupa lugar central nessa narrativa. Segundo Hélio Secretário dos Santos, após o assassinato de Helzano, o bar tornou-se essencial para a compreensão e possível solução do crime. O estabelecimento foi apontado como o último lugar frequentado pelo carteiro antes de sua morte e funcionava do fim da tarde até o amanhecer, sobretudo na passagem do sábado para o domingo.

Esse espaço não aparece apenas como ponto de passagem. O Amarelinho reunia moradores da região, trabalhadores, artistas, atores, poetas, pintores e frequentadores vindos de outros bairros. Também foi visto por autoridades policiais como lugar de homens de masculinidade considerada duvidosa. No caso Helzano, a cidade noturna, o teatro, a boemia e a suspeita moral se aproximam de maneira decisiva.

No caso de Luiz da Costa Leite, a geografia se desloca para outro circuito urbano. A dissertação menciona a Avenida Frei Serafim, a área em torno da Igreja São Benedito, o Bar da Dona Dezinha e a região da Prainha, na margem do Rio Parnaíba, ao longo da Avenida Maranhão. Segundo as investigações examinadas pelo autor, Luiz costumava circular de carro pelas ruas do centro, especialmente pela Frei Serafim, dando voltas nas imediações da Igreja São Benedito. O Bar da Dona Dezinha aparece como ponto de observação e espera, onde jovens permaneciam na parte externa do estabelecimento.

A Prainha amplia essa geografia para as margens do Parnaíba. Nesse ponto, a cidade deixa de aparecer apenas como centro administrativo ou comercial. Ela surge também como espaço de lazer popular, observação dos corpos, circulação masculina e encontros discretos. A aproximação com a pesquisa de Pablo Josué Carvalho Silva reforça esse enquadramento, pois sua dissertação trata a noite de Teresina como circuito de lazer, urbanização, circulação, medo, insegurança e produção jornalística de sujeitos e práticas indesejáveis.

Na morte de Antonio Soares da Costa, conhecido como Chocolate, a cidade aparece por meio de uma cartografia mais privada e ambígua. O centro não surge apenas como espaço de bares e circulação. Também aparece como espaço de escritórios, serviços, favores, fotografias e relações atravessadas por dependência. Segundo a dissertação, Antonio fazia cobranças para escritórios de advocacia e foi assassinado em seu próprio escritório, situado na Rua David Caldas, número 1309.

Esse caso revela outro tipo de espaço urbano. Não se trata apenas da rua noturna ou do bar frequentado por homens. Trata-se também do ambiente de trabalho convertido em lugar de intimidade, segredo, violência e exposição pública. A morte de Chocolate desloca a leitura da cidade para interiores aparentemente ordinários, nos quais relações pessoais, favores, imagens e suspeitas passam a compor a narrativa do crime.

O desaparecimento de Valteuste Sampaio Melo, auditor-chefe da CEPISA, leva a pesquisa para a Avenida Miguel Rosa, especialmente para a região da Piçarra. A dissertação registra que Valteuste costumava frequentar mais de um bar quando saía à noite, entre eles O Pinguim e o Bar do Paulo, ambos situados na Avenida Miguel Rosa. Também menciona a circulação por bares da Prainha, da Miguel Rosa, das proximidades da Praça Pedro II, da Praça Saraiva e de estabelecimentos da vizinha cidade de Timon.

Nesse episódio, a cartografia se torna mais dispersa. Ela passa pelo bar, pelo automóvel, pela avenida, por possíveis deslocamentos entre Teresina e outros pontos da região e pelo desaparecimento do corpo e do veículo. A cidade surge como percurso interrompido. A ausência do corpo, no quarto caso, também diferencia o desaparecimento de Valteuste dos demais episódios analisados por Hélio Secretário dos Santos.

Esses lugares não funcionam apenas como cenário. Eles organizam a leitura dos crimes e revelam como certos espaços de convivência masculina, boêmia, artística e homoerótica foram associados à suspeita, ao desejo, ao lazer, à violência e à memória. O bar O Amarelinho, o Bar do Leôncio, a Avenida Frei Serafim, a Igreja São Benedito, o Bar da Dona Dezinha, a Prainha, a Avenida Maranhão, a Rua David Caldas, o bar O Pinguim, a Avenida Miguel Rosa, a Piçarra e os bares próximos às praças centrais compõem uma cartografia urbana da Teresina noturna.

Teresina aparece, portanto, não apenas por seus bairros, ruas e bares. Aparece também por seus códigos morais, seus rumores, seus medos e suas formas de lembrar. A partir dos quatro casos, Hélio Secretário dos Santos mostra como a imprensa e a polícia associaram violência, sexualidade e espaços urbanos. O que emerge dessa leitura é uma cidade noturna, vigiada e desigual, marcada por mudanças comportamentais e por disputas sobre o que significava ser homem nas décadas de 1970 e 1980.



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