O RIO PARNAÍBA




         Gargarejo de mortes de afogados 
e brilho de luar sobre o silêncio 
ruídos sem barulho de asas brancas 
invisíveis na esteira do mistério.

         Embarcações fantasmas com seus remos
violentando o espelho da corrente 
e a história dos antigos moradores 
que perlustraram a estrada do degredo.

         Nas margens as perguntas os inquéritos 
o tiro a interjeição e a morte cinza: 
gargalhada de álcool nas bodegas.

         A indiferença escorre como gosma 
e o rio na derrota da incerteza 
leva faunas estranhas no seu ventre.


 
Clóvis Moura
em "Argila da Memória" (1962)

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