O RIO


ao poeta Cineas Santos


preciso urgentemente escrever um poema!

que os versos sejam vorazes,
lembrando o rio de minha cidade,
comendo as pedras do cais.

mas como escrevê-lo?

como domar o rio de minha cidade
à condição de poema?

o rio de minha cidade não pede adjetivos,
principalmente recusa os que o tornam abstrato.

o rio de minha cidade é um rio migrante,
por que aprisioná-lo no corpo do poema?

o rio de minha cidade guarda em suas entranhas
o orgulho do homem sozinho.

o rio de minha cidade é água viva na carne,
água pesada na memória.

o rio de minha cidade é torto
como uma cicatriz,
fazê-lo reto seria contradizê-lo.

vivê-lo, petrificá-lo nas retinas.
esquecê-lo, jamais.

preciso urgentemente escrever um poema!



em "ta pronto seu lobo?" 
Edições Corisco: Teresina, 2002 (2ª edição)

Um comentário:

Hélio Soares Pereira disse...

Deixo aqui, a minha admiração por esse grande poeta piauiense. Gosto de todos os seus poemas e a leitura é de uma leveza incrível.

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