"Café Art Bar pede atenção!", por Rodrigo M. Leite





No início de dezembro de 2025, foi publicado na imprensa local que o Café Art Bar poderá encerrar suas atividades em decorrência das obras de reforma e revitalização do Cine Rex. A notícia rapidamente repercutiu nas redes sociais, mobilizando frequentadores, artistas e trabalhadores do Centro de Teresina, que manifestaram preocupação com o futuro do estabelecimento e com os impactos da intervenção no cotidiano da Praça Pedro II.

Café Art Bar funciona há mais de cinquenta anos no prédio do Cine Rex, na Praça Pedro II, integrando o conjunto de estabelecimentos que historicamente compuseram a ambiência urbana do centro de Teresina. Sua permanência contínua ao longo de décadas acompanhou diferentes ciclos da vida social da praça, desde períodos de intensa movimentação até fases de esvaziamento progressivo, mantendo-se como ponto cotidiano de encontro de trabalhadores, estudantes, artistas e frequentadores da região.

Cine Rex, por sua vez, é um edifício inaugurado em 25 de fevereiro de 1939, que pertencia à família Cortellazzi e é reconhecido como exemplar de arquitetura Art Déco. Foi tombado pelo Estado em 1995, após um processo iniciado na década de 1990 em razão de seu valor histórico e simbólico para a cidade. Durante grande parte de sua existência, o prédio funcionou predominantemente como cinema de rua, tornando-se um marco cultural para várias gerações de teresinenses e um dos principais espaços de sociabilidade do centro urbano. Com o declínio dos cinemas tradicionais nas décadas finais do século XX, suas atividades foram gradualmente reduzidas.

A partir do início dos anos 2000, o Cine Rex deixou gradualmente de funcionar como cinema, iniciando um período prolongado de inatividade que resultou no progressivo abandono de suas instalações. A ausência de uso cultural contínuo e a deterioração física do prédio tornaram-se cada vez mais visíveis, acompanhando o esvaziamento comercial e populacional da própria Praça Pedro II. Nesse contexto, o edifício, embora tombado e reconhecido por seu valor histórico, permaneceu por longos anos sem projeto consolidado de requalificação.

Em 2005, o espaço foi convertido em casa de shows, sob o nome de Club Rex, funcionando por curto período. Desde então, o prédio permaneceu majoritariamente desocupado, com sinais crescentes de deterioração física. Nesse intervalo, o Café Art Bar, instalado em sua parte frontal, continuou operando regularmente e se tornou, na prática, um dos poucos estabelecimentos ativos na Praça Pedro II, preservando parte da vitalidade social que outrora caracterizou o entorno do Cine Rex.

Entre 2010 e 2024, a situação de abandono motivou diferentes grupos de artistas, produtores culturais e trabalhadores do centro a realizarem manifestações em frente ao prédio do antigo cinema. Os atos reivindicavam a desapropriação do imóvel, a recuperação de sua função cultural e a necessidade de integrar o Rex a um projeto mais amplo de revitalização do centro histórico. As mobilizações foram registradas pela imprensa local (1, 2, 3), que destacou a presença de artistas de múltiplas linguagens, bem como a leitura de manifestos defendendo a destinação do prédio a atividades culturais.

Nessas ocasiões, o Café Art Bar desempenhou papel relevante ao oferecer apoio logístico e acolhimento aos participantes. Segundo relatos recorrentes de frequentadores e organizadores, o estabelecimento disponibilizou espaço físico, acesso a água e energia elétrica, mesas e material de suporte para a realização dos atos públicos. A presença do café nos protestos ilustrou sua ligação histórica com o entorno e sua participação ativa na manutenção de formas de sociabilidade que persistiram mesmo durante o abandono do Cine Rex.

Em agosto de 2024, o Governo do Estado do Piauí publicou decreto declarando a utilidade pública do prédio do Cine Rex para fins de desapropriação, com o objetivo de restaurar o edifício e instalar no local uma Escola de Cinema e Audiovisual. A medida, anunciada pelo governador Rafael Fonteles, integrou um conjunto de ações voltadas à revitalização do centro histórico e à recomposição do Complexo Cultural da Praça Pedro II, que reúne o Theatro 4 de Setembro, o Clube dos Diários e a Central de Artesanato Mestre Dezinho.

Conforme divulgado pela gestão estadual, a Secretaria de Estado da Educação (Seduc) ficará responsável pela implementação técnica da futura escola, enquanto a Secretaria de Cultura (Secult) atuará na fiscalização do processo e na articulação com as demais instituições do complexo cultural. Segundo as notas oficiais, a expectativa é que o prédio restaurado seja incorporado às atividades culturais regulares da praça, contribuindo para dinamizar o uso do espaço por turistas e moradores.

O anúncio gerou questionamentos sobre o possível impacto na continuidade dos trabalhos do Café Art Bar no entorno da Praça Pedro II, uma vez que o Estado possui legislações e normativas que proíbem a venda, a oferta, o fornecimento, a entrega e a permissão de consumo de bebida alcoólica no ambiente físico dos estabelecimentos de ensino da Rede Estadual de Educação do Piauí. Embora nenhuma diretriz específica tenha sido divulgada para o caso do Cine Rex, a existência dessas normas motivou especulações sobre consequências indiretas para o funcionamento do Café Art Bar.





Segundo relato do Sr. Gonçalo, representante do Café, houve uma única reunião formal realizada ainda na administração anterior da Secretaria de Cultura, no início do ano de 2025, para tratar sobre o assunto. Na ocasião, foram apresentadas informações preliminares sobre a desapropriação do prédio, a futura instalação da Escola de Cinema e Audiovisual e a possibilidade de transferência temporária do café para o espaço existente no Clube dos Diários durante o período de obras. 

Além disso, desde a reunião, os representantes do Café Art Bar não voltaram a ser contatados pelo Poder Público. Até o momento, não foram prestadas informações oficiais acerca do andamento do processo de desapropriação, do cronograma das obras ou das medidas de transição que poderão afetar o funcionamento do estabelecimento.

Permanece, assim, um cenário de indefinição sobre os próximos passos. Os proprietários e funcionários aguardam esclarecimentos quanto à possibilidade de transferência provisória para o espaço disponível no Clube dos Diários durante o período de reforma, conforme inicialmente sugerido, bem como sobre a eventual retomada das atividades no prédio do Cine Rex após a conclusão das obras, mantendo as funções historicamente exercidas pelo café no térreo do edifício.

De igual modo, não há informações sobre a viabilidade de permanência definitiva no Clube dos Diários, caso a reocupação do térreo do Cine Rex não se mostre possível sob as novas diretrizes institucionais. A ausência de comunicação oficial tem gerado incerteza entre trabalhadores, frequentadores e agentes culturais da região, sobretudo diante do papel que o Café Art Bar desempenha há décadas na dinâmica cotidiana da Praça Pedro II.

Em síntese, os representantes do Café Art Bar aguardam posicionamento oficial das autoridades competentes e pedem atenção institucional ao caso, de modo a assegurar transparência sobre as etapas do projeto e previsibilidade quanto ao futuro do estabelecimento.

A partir desse quadro concreto, torna-se necessário compreender o que está em jogo quando se fala em Praça Pedro IICine Rex e Café Art Bar. Não se trata apenas de um prédio e de um ponto comercial, mas de um conjunto de sentidos acumulados ao longo de décadas. É nesse ponto que a leitura da cidade pelos seus cronistas, poetas e historiadores ajuda a iluminar a dimensão simbólica e afetiva que as intervenções urbanas tendem a obscurecer.

À maneira das cidades invisíveis de Italo Calvino, esta leitura da Praça Pedro II começa pela palavra de Paulo Machado, talvez o mais atento cartógrafo afetivo de Teresina. Em poemas como “Nas ruas da minha cidade há lições? (É preciso aprendê-las)”, ele lembra que a cidade não é mero cenário, mas campo de experiência, conhecimento e memória. Quando escreve que “a Avenida Frei Serafim divide a cidade em duas fatias de medo”, antecipa a figuração de uma Teresina cindida, entre Centro e zona Leste, entre passado e modernidade, que será retomada por autores como Edmar OliveiraRenata Flávia e Cunha e Silva Filho. Para Machado, a cidade “guarda segredos”, e é justamente nessa dimensão subterrânea que se inscrevem espaços como o Rex e o Café Art Bar.

A história das sociabilidades no centro de Teresina revela que a Praça Pedro II e seus equipamentos culturais não surgiram isoladamente, mas como resultado de um longo processo de reorganização dos modos de convivência urbana. Como demonstra Nilsângela Cardoso Lima, as primeiras décadas do século XX foram marcadas pela modernização dos espaços públicos (praças, cafés, bares, teatros e cinemas) que redefiniram a vida social da capital. A Praça Pedro II, reformada em 1936, tornou-se o novo palco dos rituais de circulação da cidade, substituindo a hegemonia anterior da Praça Rio Branco. 

As intervenções urbanísticas, como o paisagismo Art Déco, a construção do coreto e a iluminação pública, associaram-se à emergência de práticas sociais que distinguiam grupos, horários e usos. A “praça de baixo” frequentada pela elite e a “praça de cima”, por empregadas, soldados e trabalhadores. Sob essa perspectiva, o Café Art Bar aparece como herdeiro direto de uma genealogia de cafés da cidade e pontos de encontro da praça, articulando-se a uma forma histórica de sociabilidade urbana que combina lazer, ritual e convivência cotidiana.




No campo dos estudos urbanos, sociabilidade não se confunde com convivência genérica. Como lembra Luiz Antonio Machado da Silva, trata-se de um “modo de relação que estrutura a experiência coletiva no espaço”, articulando práticas, ritmos, usos, permanências e formas de reconhecimento. Do mesmo modo, para José Guilherme Magnani (2002), certos pontos da cidade funcionam como “pedaços”, isto é, microterritórios que produzem vínculos, identidades e redes de proteção simbólica. À luz dessas definições, o Café Art Bar não é apenas um estabelecimento comercial, mas um desses pedaços urbanos cuja continuidade permite que a Praça Pedro II mantenha uma dinâmica cotidiana estável, reconhecível e funcional para seus frequentadores. A remoção ou interrupção desse elo produz efeitos que extrapolam o plano econômico e alcançam a própria inteligibilidade do centro da cidade.

A leitura de Diva Maria Freire Figueiredo, arquiteta do IPHAN, permite compreender como a Praça Pedro II consolidou sua vocação cultural não apenas pela presença do Theatro 4 de Setembro, mas também pela criação e posterior decadência dos cinemas de rua. A autora mostra que a praça foi concebida como espaço exemplar da modernidade teresinense, abrigando equipamentos que deveriam organizar, educar e harmonizar o uso público do centro da cidade. A construção do Cine Rex, em 1939, integrou-se a esse projeto urbanístico, reforçando um ecossistema cultural no qual cafés e bares atuavam como extensões naturais da vida pública. A permanência do Café Art Bar na base desse edifício ao longo de décadas sinaliza uma continuidade concreta dessa vocação original: trata-se de um estabelecimento que não apenas ocupa fisicamente o prédio, mas dá uso cotidiano à praça, traduzindo a intencionalidade histórica de um espaço voltado à convivência e à cultura.

No plano das mentalidades coletivas, os escritos de Simplício Mendes evidenciam o impacto que a chegada dos cinemas exerceu sobre a autoimagem da cidade. Para o cronista, o Cine Rex não foi apenas mais um equipamento, mas representou o marco de entrada definitiva de Teresina na modernidade cultural, simbolizando refinamento, progresso e distinção social. O cinema “melhor instalado e mais confortável do Nordeste”, como ele registra em 1966, tornava-se monumento de orgulho público e peça central do lazer urbano. Essa percepção histórica reforça que o Rex sempre funcionou em diálogo com as formas de sociabilidade que o cercavam, ou seja, cafés, bares, encontros e ritos noturnos, compondo com eles um sistema integrado. Ao longo do tempo, à medida que o cinema sofreu declínio e abandono, o Café Art Bar se manteve como um dos últimos resquícios vivos dessa estrutura cultural entrelaçada. 

Numa perspectiva memorialística, Guaipuan Vieira aprofunda a compreensão desse tecido urbano ao apresentar a Praça Pedro II como “cordão umbilical” da história afetiva e social da cidade. Em sua narrativa, o Cine Rex surge como “ancião solitário”, testemunha resistente de transformações profundas que alteraram o ritmo cotidiano do centro. Ao percorrer ruas, praças, cabarés, cinemas e histórias populares, Guaipuan demonstra que a praça sempre foi um espaço de camadas sucessivas de memória, palco de debates, encontros amorosos, conflitos, flertes, tragédias e rituais coletivos.  

A utilização de cronistas, poetas e memorialistas como lentes interpretativas não é mero recurso estilístico, mas procedimento metodológico amplamente reconhecido nos estudos urbanos. Como demonstra Sandra Pesavento, a cidade é também “um artefato simbólico”, e é justamente na literatura, na crônica e na memória que se revelam as camadas de sentido que os diagnósticos técnicos muitas vezes não captam. Ao reunir vozes como as de Nilsângela CardosoDiva Figueiredo, Simplício MendesGuaipuan Vieira, Cunha e Silva FilhoEdmar Oliveira e Paulo Machado, não se pretende apenas ornamentar a narrativa, mas evidenciar que a Praça Pedro II — e, nela, o Café Art Bar — é produto de uma sobreposição de tempos, práticas e afetos cuja compreensão exige essa escuta múltipla.




Se cronistas como Simplício MendesGuaipuan Vieira ajudam a reconstruir a Praça Pedro II como eixo da modernidade urbana, a literatura mais recente mostra o mesmo espaço sob novas camadas de precariedade, sobrevivência e reinvenção. Manoel Ciríaco, em “Praça Pedro Segundo nos tempos da lambada”, retrata o entorno do Rex como um microcosmo turbulento: espetinhos, lambada em cartaz, gays à beira da banca do Joel, trombadinhas, garçons exaustos e o trânsito barulhento compondo um cenário tão caótico quanto vivo. Renata Flávia, em “Cartografia infinda”, inscreve a praça numa poética do abandono — “drogas, ratos e lixos circulam onde antes havia poltronas de cinema” — captando a convivência tensa entre ruína e permanência. Lucas Rolin, por sua vez, vê no coração da praça um pulso ainda presente: “no coração da praça pedro ii / pulsam macramês polimórficos”, enquanto Jamerson Lemos recupera o gesto de travessia cotidiana: “o barato é o rio e a fonte / da Pedro II”.

Mesmo no registro mínimo do cotidiano, como no poema “Café Art Bar”, do poeta Rodrigo M. Leite, em que “a tarde é consumida dentro de um café” enquanto a praça “urge roncos trôpegos”, evidencia-se que o estabelecimento e seu entorno formam um único campo de experiência urbana. Esses autores revelam que a vitalidade do Centro não desapareceu: ela se reconfigurou em novos corpos, rotinas, sonoridades e modos de estar, muitos deles ancorados precisamente no Café Art Bar.

Como lembra Paulo Machado, ao indagar se “nas ruas da minha cidade há lições” e se a própria cidade “guarda segredos”, a vida urbana não se esgota na materialidade dos prédios ou na sucessão de reformas. Há um conhecimento difuso, tecido na escuta cotidiana, que também compõe a memória cultural de um lugar. Nesse sentido, figuras como o Sr. Gonçalo, há décadas no balcão do Café Art Bar, atuam como arautos de uma memória oral que não se arquiva em documentos. Sua escuta cotidiana, suas narrativas e suas relações atravessam ciclos urbanos e mantêm viva uma sociabilidade que o prédio, por si só, não contém.

Podemos dizer que qualquer alteração significativa no regime de usos da praça, como a remoção ou descaracterização de um estabelecimento que há meio século participa da vida diária do local, não impacta apenas um empreendimento comercial, mas um elo da cadeia histórica de significados que confere identidade ao centro da cidade.

As reflexões de Cunha e Silva Filho introduzem a dimensão da cidade como processo de perda, deslocamento e não reconhecimento. Ao retornar a Teresina décadas depois, ele constata que “a cidade tenta escapar dos meus dedos”, descrevendo a Praça Pedro II, o Rex e a Rio Branco como relicários de uma memória que resiste em meio ao desaparecimento de referências afetivas. Essa leitura é fundamental para compreender o papel do Café Art Bar como lugar de continuidade. Em meio às transformações aceleradas, sua permanência oferece uma “âncora de reconhecimento” que permite que diferentes gerações mantenham vínculo com a cidade histórica. Em uma conjuntura de intervenções urbanas que frequentemente eliminam usos tradicionais em nome de novos projetos, essa noção de continuidade cultural adquire peso especial.

Edmar Oliveira oferece a diagnose contemporânea que articula abandono, esvaziamento e fragilização do centro urbano. Para ele, a cidade antiga se converteu em “cidade fantasma”, marcada pela retração das atividades noturnas, pelo medo, pela degradação e pela migração da vida para a zona Leste. Essa imagem reforça o contraste entre a vitalidade que caracterizou a Praça Pedro II durante grande parte do século XX e a realidade mais recente de desocupação progressiva. A partir dessa leitura, a existência contínua do Café Art Bar não é mero resíduo do passado, mas um componente ativo de resistência cultural, contribuindo para manter circulação, visibilidade e vida pública em um espaço historicamente central, mas em processo de fragilização.

Importante ressaltar que a retórica contemporânea de que o Centro de Teresina estaria “morto” ou “abandonado” reproduz, ainda que inadvertidamente, o que Pesavento (1999) identifica como vocabulário de estigmatização urbana, um conjunto de representações que não descrevem a cidade, mas a produzem simbolicamente como espaço de decadência, perigo ou inviabilidade. 

Como lembra Bourdieu (1990), as palavras não apenas nomeiam o real; elas o fazem existir como possibilidade social e política. Assim, quando se insiste que “não há mais vida no Centro”, produz-se um efeito performativo de morte, obscurecendo dinâmicas vivas de sociabilidade que persistiram mesmo nos períodos de maior abandono institucional. O Café Art Bar, funcionando diariamente, atravessando crises, acolhendo trabalhadores, artistas e transeuntes, é precisamente o tipo de presença que contraria essa narrativa estigmatizante. 

Pesavento (1999) mostra que tais discursos de “lugares malditos” operam como mecanismos simbólicos de exclusão, deslocando para certas áreas da cidade uma identidade depreciada ou condenada. Mas, no caso da Praça Pedro II, a vitalidade cotidiana, ainda que discreta e resistente, nunca desapareceu.

Nesse sentido, o caso do Café Art Bar funciona como uma espécie de contraprova empírica do discurso que insiste em declarar “morto” o Centro de Teresina. Ao atravessar décadas de transformações urbanas, crises econômicas e abandono institucional do Cine Rex, o café manteve acesa uma forma concreta de vida pública na Praça Pedro II. O local garantiu circulação diária de pessoas, acolheu protestos, serviu de ponto de encontro e de apoio para trabalhadores, artistas e estudantes. Qualquer política de “revitalização” que desconsidere essa trajetória e trate o estabelecimento apenas como obstáculo operacional perde de vista justamente aquilo que faz de um equipamento cultural mais do que um prédio restaurado: a rede de sociabilidades que o sustenta e lhe dá sentido. 

A discussão sobre o Café Art Bar ultrapassa a gestão de um imóvel e se projeta sobre o debate maior do direito à cidade, da função social dos bens culturais e da necessidade de que projetos de requalificação preservem não apenas fachadas, mas também seus usos, memórias e vínculos coletivos. Por essas razões, qualquer política pública voltada ao Cine Rex e à Praça Pedro II deve ser conduzida com máxima cautela, transparência e participação dos agentes que historicamente constituem o espaço. Como alerta Françoise Choay, intervenções que preservam apenas o edifício, mas desconsideram seus usos e significados sociais, transformam o patrimônio em cenário e, não, em bem cultural efetivamente vivo. 

No caso presente, o Café Art Bar integra a infraestrutura simbólica que garante circulação, presença humana e vida cotidiana na praça. Sua continuidade, física ou funcional, não é questão acessória, mas componente indispensável para que o projeto de revitalização não resulte em perda de memória, apagamento de práticas e esvaziamento urbano.



Rodrigo M. Leite
em 06/12/2025



BOURDIEU, Pierre. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1990.
CALVINO, Italo. As cidades invisíveis. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.
CARDOSO LIMA, Nilsângela. De Uruguaiana à Rio Branco, de Aquidabã à Pedro II: a mudança de nome é também ressignificação das liturgias e ritos das sociabilidades. In: FONSECA NETO, Luiz (org.). Teresina 150 anos – 1852/2002. Teresina: Gráfica e Editora Júnior, 2002.
CHOUAY, Françoise. A alegoria do patrimônio. São Paulo: Editora Unesp, 2001.
CIRÍACO, Manoel. Praça Pedro Segundo nos tempos da lambada. In: 145 anos: Teresina cidade futuro. Teresina: FCMC, 1997.
CUNHA E SILVA FILHO. Um estranho em Teresina. Portal Entretextos, 2016.
EDMAR OLIVEIRA. Impressões de viagem. Piauinauta, 15 jun. 2014.
FIGUEIREDO, Diva Maria Freire. Praça Pedro Segundo, dos anos 30 à década de 90. In: P2. Teresina: Livraria e Editora Corisco, 2001.
FONSECA NETO, Luiz (org.). Teresina 150 anos – 1852/2002. Teresina: Gráfica e Editora Júnior, 2002.
GUAIPUAN VIEIRA. Teresina no passado. Blog AMLECE, s.d.
LEITE, Rodrigo M. Café Art Bar. In: A cidade frita. Teresina, 2013.
LEMOS, Jamerson. Passa o tempo passatempo. In: Sábado árido. Teresina, 1985.
MACHADO, Paulo. Nas ruas da minha cidade há lições? (É preciso aprendê-las). In: A paz no pântano. Teresina, 1982.
MACHADO DA SILVA, Luiz Antônio. Vida sob cerco: violência e rotina nas favelas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2008.
MAGNANI, José Guilherme. De perto e de dentro: notas para uma etnografia urbana. São Paulo: Terceiro Nome, 2002.
MENDES, Simplício de Sousa. O cinema em Teresina. Jornal O Dia, Coluna Televisão, 7 set. 1966. (via Blog Kenard Kruel).
NUNES, M. Paulo. Memória Pedro II. In: P2. Teresina: Livraria e Editora Corisco, 2001.
PESAVENTO, Sandra Jatahy. Lugares malditos: a construção social do espaço urbano. Porto Alegre: Ed. da UFRGS, 1999.
ROLIN, Lucas. Guia estético/sensível dos enredos da cidade. Poema enviado pelo autor, 2015.
FLÁVIA, Renata. Cartografia infinda. Poema enviado pela autora, 2023.



Comentários