"TEMPOS DE CHUMBO", por Ací Campelo




Ao participar da FELIPI - Feira da Literatura Piauiense, promovida pela Academia Teresinense de Letras - ATL e Editora Lamparina, no Sesc Cajuina, dias 02 a 04 de setembro, como um dos homenageados, fiz uma fala ao público. Interessante é que de tudo que falei uma das partes que foi mais ouvida e teve repercussão foi sobre a ditadura militar. E foi porque contei apenas uma pequena passagem daqueles tempos de chumbo. Vamos aqui recordar ela e outras.

Relatei que ao ir à Policia Federal para liberar meu texto teatral Alto do Corisco, no início dos anos oitenta, um texto que contava a história do Piauí de forma satírica, fui surpreendido pelo censor, um velho conhecido, com a seguinte questão. Você não pode colocar no texto a frase "Meu amigo ligue-se na liga do Julião". A frase fazia parte do texto, sim. E se referia a Chico Julião, criador das ligas camponesas do Recife na década de sessenta. Chico Julião se tornou um inimigo da ditadura. E foi exilado do Brasil por muitos anos. Eu, na frente do censor, me fiz de inocente. "Mas doutor por que?" O censor. "Porque não. Chico Julião é um subversivo!". "Eu não sabia, doutor". O homem foi taxativo. "Não pode. Você vai ter que trocar esse nome por Pedrão, Raimundão, Toião, mas Julião não pode". Eu, simplesmente. "Tá bem, doutor". Recebi o texto mas nunca troquei o nome de Julião.

De outra feita, eu estudante da Universidade Federal do Piauí no início dos anos oitenta fomos surpreendidos quando a polícia cercou o campus da Universidade. Eu estudava educação artística, e estava no auditório do departamento. A gente sabia da gravidade da situação naquele período. O embate entre os estudantes e a ditadura. Mas não esperava tanto. O certo é que foi uma correria danada dentro da Universidade. Ninguém se entendia. Estudantes cercados, bombas de gás, cassetetes, o escambau. Eu ao invés de correr para onde os estudantes estavam, corri foi para dentro de um banheiro. Fiquei lá dentro me tremendo de medo. Na minha cabeça era fácil me pegar, bastava os soldados fazerem uma vistoria. O tempo foi um século. Então, tive a coragem de sair para olhar como estavam as coisas. Quando sai do banheiro, vinha um colega correndo ao me encontro. Vamos entrar no banheiro, ele quase grita. Entramos no banheiro. Ele disse que os soldados estavam vindo fazendo vistoria nas salas. Foi um terror. O que é que eu tinha a ver com aquilo? 

Passaram alguns minutos. Escutamos os soldados. Fiquei dentro do banheiro, em cima do vaso sanitário. Um soldado entrou de relance e bateu com o cassetete na porta. A pancada foi terrível. Viajei no tempo. Mas ele não entrou nos banheiros. Apenas falou alto que não tinha ninguém ali. Foi terrível!

Tem muitas histórias do tempo de chumbo. Não dar para esquecer. Ditadura jamais! 

12 de setembro de 2025
via blog do autor:


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