MÁGICO "NÓS & ELIS”


Patrícia Mellodi e Moisés Chaves


O Passado vira e mexe, volta! As nossas histórias são mitificadas pelo tempo e pelo saudosismo. É assim que me sinto falando sobre minhas experiências no “Nós e Elis”, remexendo num baú de lembranças que à alma me são muito caras.

Tive a oportunidade de cantar profissionalmente a primeira vez ali, naquela esquina mágica. Eu era apenas uma menina de 16 anos que mentia dizendo que tinha dezessete, pois achava que pareceria mais madura.

Lembro do dia em que saí com alguns amigos e fomos até lá tomar uma cerveja e ouvir boa música. (Nesse tempo menor podia beber e namorar pessoa maior de idade que não era crime!) Escolada e conhecida nos karaoquês do Jockey fui convidada a dar uma canja. – Vai lá Patrícia, vai lá! Disse a mesa em coro. E eu fui. Um tanto tímida e me sentindo deslocada, pois meu mundo não era o artístico, era o das famílias "caretas" e tradicionais de Teresina frequentadoras da Igreja de Fátima do Padre Tony. Mas aquele lugar era diferente do resto, transpirava um universo distante que eu mal podia imaginar que seria o meu pra sempre.

Quando desci do Palco, um rapaz cabeludo, jeito exagerado, diria até exótico pros padrões da época, me abordou: - Você é uma estrela! Vamos fazer um show? Era o Moisés Chaves que estava fazendo a programação musical do Bar nos tempos da Família Fonteles. "Eu confesso tive medo, quase disse não!"- Que gente mais estranha! Mas, fui tocada, convencida pela vaidade comum aos artistas diante de tantos elogios e aceitei fazer meu primeiro Show, "Presença".

Pela primeira vez tive direito a direção, cenário, figurino e até assessoria de imprensa, tudo feito pelo Moisés, o meu descobridor de Talentos. Na banda Geraldo Brito na guitarra (meu grande amigo e mentor musical até hoje), Bebeto na bateria e um baixista muito figura que o tempo corroeu o nome da minha memória. A Alda Caddah, da AldaTur, ex-diretora do Teatro 4 de setembro, sensível às artes, acreditou nas palavras do Moisés a meu respeito e nos deu o primeiro patrocínio.

E assim aconteceu o show no Nós e Elis, lotado, com direito a vários artistas na platéia, notas de jornal. Daquele dia em diante eu me tornaria uma artista e aquelas pessoas estranhas, meus amigos e colegas de profissão.

E, como eu falei no início, aquele lugar era mesmo mágico. Nunca contei isso pra ninguém, mas vou escrever agora. Eu tive naquela noite uma experiência mística. No meio de uma música, eu me senti saindo do corpo. Ouvia a minha voz longe, uma sensação de silêncio, como se tivesse entrado num vácuo entre a música e eu mesma. Foi definitivo pra mim, um sinal. Aquilo parecia me dizer que nunca mais eu sairia desse espaço, desse universo paralelo, desse mundo.

Foi ali no Nós e Elis e em mais lugar nenhum.



Patrícia Mellodi
em "No Nós & Elis: A Gente Era Feliz – e sabia"
Teresina: Gráfica Halley, 2010
Organizado por Joca Oeiras

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