NAS PEGADAS DO RIO / Humberto Guimarães



CAPÍTULO XI (trecho) 
VOGANDO NAS ÁGUAS BARRENTAS


Um dia, perambulando por Benedito Leite, onde era bastante conhecido, chegou à quitanda do senhor Benigno para comprar cachaça, tendo a oportunidade de assistir ao final de uma transação que o dono da quitanda estava a fazer com João Costa, um rico boiadeiro de São Félix do Maranhão, cidade vizinha a Loreto.

João Costa e sua família eram os donos políticos da cidade, sendo temidos e obedecidos por todos os munícipes .

Pois bem. Julião fez como se não tivesse nenhum interesse no negócio, esperou que o boiadeiro recebesse o dinheiro, pediu a cachaça e saiu a seguir.

Imediatamente procurou seu filho Santero e um outro comparsa que não se sabe o nome e, tomando a estrada para São Félix, que margeia o rio Balsas, ficaram de tocaia a alguns quilômetros da Forquilha - local onde o Balsas se derrama no Parnaíba. Mais exatamente, esconderam-se por trás da "Pedra dos 30 Trinta Bois".

João Costa, com seu revólver 32, Smith niquelado, cabo de madrepérola, à cintura, e seus sapatos à moda - um lado branco e outro marrom, montando seu cavalo arisco, sela coberta de cochonil branco e cincha vistosa, satisfeito com o bom negócio que fizera, ruma agora, tranquilo, para casa.

Ao atingir a "Pedra dos Trinta Bois", é assaltado pelos três patifes, sem poder reagir. Matam-no. Roubam-lhe. A seguir pegam o cadáver. atam-lhe uma pedra ao pescoço e o fixam com cordas por baixo de um pau que está semi-coberto pela águas, à margem, recoberto de limo.

E fogem, como só eles sabem fugir.

Passa o tempo. A família sabe que João Costa saiu de Benedito Leite em direção a São Félix, mas ali jamais chegara. Não há duvida de que ele fora assassinado. Entretanto, nem sinal de pista.

Contudo certo dia um vaqueiro vai passando pelo local a tanger um boi encaretado, quando avista, boiando, um pé de sapato branco e marrom. Facilmente descobre o cadáver por baixo do pau, já totalmente estragado, a pele largando dos ossos, a fedentina se espalhando, insuportável, quando o procura remover.

Leva a notícia a Benedito Leite, que entra em comunicação com São Félix. A família da vítima vem aprestar-lhe o enterro. Tem a intenção de levar o corpo para o cemitério de sua cidade, mas o adiantado estado de putrefação não o permite. Assim, os restos mortais de João da Costa são enterrados por trás da "Pedra dos Trinta Bois", bem onde se esconderam seus assassinos.

E nada dos criminosos, apresar da caçada intensa que a família promove. Só algum tempo depois o acaso facilita as coisas, pondo a falta de cautela num dos matadores, o Santero, que, num botequim de São Félix, numa estúpida afronta, embriaga-se, faz baderna e expõe o revólver, que não teria jamais condições de comprar. A arma é logo reconhecida por circunstantes. A família da vítima é avisada e na mesma noite Santero é preso. Depois de um arrocho policial que mal começou, Santero dá o serviço: Julião tinha descido num "macaco" para tucuns, com um carrego de farinha e rapadura, seu mesmo. O outro tinha desaparecido para Goiás.

Policiais de Benedito Leite e de Uruçuí vão a Tucuns e, sem dificuldade, pegam Julião numa venda de cachaça, já se aprestando para a volta a pé. Ao chegarem a Uruçuí, o delegado não o aceita, diz que a ocorrência fora do lado do Maranhão, e julião é levado para Benedito Leite, onde é juntado ao filho, no interior da cadeia.

Numa meia-noite velha sem lua, aconchavados com os soldados, que relaxaram a guarda, os jagunços chegam e ali mesmo matam Santero enforcado e o deixam pendurado às grades por um fio de arame farpado, - a fixação de um facies de desespero, a língua numa projeção flácida: terrível máscara de morte. A seguir pegam Julião e colocam-lhe o "anjinho" - instrumento de tortura que consiste num aro de ferro que é colocado em torno da cabeça, com um parafuso de cada lado, à altura das têmporas. Colocam o instrumento abraçando a cabeça do sujeito e vão arrochando os parafusos que, ao passo que o conjunto vai-se apertando, vão penetrando até saltarem os olhos das órbitas oculares entre gritos e impropérios, entre choro e ranger de dentes, numa dor física inominável.

O silêncio da noite foi quebrado pelo gritos de Julião, logo abafados pelo tufo de estopa que entupiu sua boca e calou sua voz. Quando os olhos do negro saltaram das órbitas, cortaram-lhe a língua com uma faca dentada. Depois, começando pelo dedos dos pés e das mãos, foram-lhe cortando junta por junta. Na sanha dessa vingança não ouviram o último suspiro do negro, mas ao darem-no por morto, continuaram a cortá-lo até não ficar junta com junta.

Humberto Guimarães,
Publicado no livro "NAS PEGADAS DO RIO"
COMEPI: Teresina/PI: 1982

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