A MORTE E AS MORTES DE ZÉ MAGÃO




Numa manhã de cristal (ou teria sido numa tarde de chumbo?), dessas que só ocorrem em Teresina, Zé Magão arribou da cidade e foi garimpar incertezas em Santarém. Zé, senhor dos subúrbios de Teresina, embrenhou-se no cipoal de um mundo desconhecido, armado de serra, bigorna, maçarico e poesia. Deixou para trás versos tresmalhados, dívidas miúdas, saudade roendo o peito dos amigos. Soverteu: tornou-se incerta a notícia. Vez que outra, um garimpeiro, um mascate, um peregrino apontava por essas bandas, trazendo a má notícia: "Zé Magão morreu". Ora morrera de malária, afogado, assassinado; ora, picado de surucucu, soterrado num garimpo, de causa não sabida. Velório sem defunto, os amigos reuniam-se, recontavam casos acontecidos nas ribanceiras do Poti, bebiam cachaça, choravam tristeza. Na semana seguinte, a boa nova: um certo indivíduo, com jeito de tuiuiu (misto de Zé Ramalho com Gonzaguinha) fora visto num boteco da periferia de Santarém recitando versos para a lua. Não havia dúvida: Zé Magão estava vivo. Os amigos reuniam-se, recontavam casos acontecidos na coroa do Parnaíba, bebiam cachaça e choravam alegria. Mas quem era mesmo esse Zé Magão de tantas mortes anunciadas? Consta que se chamava José Ribamar Ribeiro, nascido em Teresina, em 30 de julho de 1950. Aluno de Dona Ditosa, caçador de rolinhas, pescador de mandis, cidadão das ruas. Estudou na Escola Técnica Federal do Piauí, de onde saiu diplomado em topografia: sabia, portanto, onde pisava. Por força da necessidade, se fez mecânico, serralheiro, soldador. Por puro prazer, poeta de versos tortos e humor corrosivo. Andou participando de algumas "antologias" mimeografadas: CARNÊ DE VIAGEM, CORAÇÃO DE DOIS TEMPOS, DANÇA DO CAOS, TOPADA, POESIA LIVRE. Em 86, publiquei, pela Coleção Folhetim, um poema seu "OS CAMELÔS", paródia do hino nacional, tendo com pano de fundo o universo dos ambulantes, camelôs e desocupados que entopem as ruas de Teresina. O livrinho, ilustrado com as fotos da Rosinha, percorreu ruas, becos e bares da cidade, conforme convinha a um poeta do naipe do Zé Magão. Por algum tempo, as notícias cessaram. Eis que, na semana passada, pela boca do poeta Menezes y Morais (quem também já esteve morto) chega-nos a notícia da última morte do Zé Magão. Foi aí que, entre comovido e indignado com Deus, lembrei-me daquela passagem terrível do livro O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago, quando Jesus, pronto para ressuscitar Lázaro, é impedido de fazê-lo por Maria Magdala (Madalena) com um argumento irrefutável: "Ninguém na vida teve tantos pecados que mereça morrer duas vezes". Para mim, vivo ou morto, Zé Magão sempre será o pota que, com extraordinário poder de síntese, disse a mais bela e dolorosa das verdades: "No coração/ uma andorinha/ faz verão", na memória, também, Zé.

Jornal MN, 27 de julho de 1997



em As Despesas do Envelhecer 
Teresina: Corisco, 2001

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