Café Avenida IV




Embora mais raramente, às vezes nos reuníamos também à noite, sempre no Café Avenida. Até às 21 horas, quando a cidade quase toda se recolhia para dormir. Os encontros ocorriam ao acaso: um de nós entrando para um cafezinho, encontrava um companheiro. Logo vinha outro, e o grupo ia se formando em torno de uma mesa e em meio aos comentários sobre fatos do dia ou trazidos pelos jornais do Rio de Janeiro. Mas qualquer assunto servia.

Uma noite, por exemplo, falava-se, entre outras coisas, de religião, da existência de Deus. Lembro-me bem dos presentes: Álvaro, Celso, Júlio, Ribamar e eu, e em mesa ao lado, depois de nos interromper duas ou três vezes, bêbado, o Agostinho Danado.

Celso acreditava em Jesus como um ser privilegiado, um profeta, um filósofo, e tinha por ele grande simpatia. Dizia até que, se estivesse em Jerusalém naqueles tempos, teria feito um barulho danado para evitar que o Cristo fosse, como foi, condenado sem culpa. Mas em matéria de religião, resumia suas idéias numa pequena frase: Tudo é amor. Deus, a vida e a morte, o sonho, a felicidade, o que é material e o que é abstrato, tudo é amor.

Júlio gostava de espicaçá-lo, sabendo que o amigo, nervoso, pegava fogo de repente. Nessa noite, após ouvir repetidas vezes a frase "tudo é amor", ele não dormiu no ponto, atirou o seu fósforo:

- Poeta, merda é amor?

Celso deixou a cadeira onde estava sentado quase num salto, e plantando-se diante do insolente, logo bradava e gesticulava, os olhos faiscando:
- Merda é amor, sim senhor! Merda é amor!

E fez um verdadeiro discurso em que havia esterco, húmus semente, germinação, planta, flor, beleza, paz e, finalmente, amor, tudo para tentar convencer, ao Júlio e a quem mais quisesse ouvi-lo, que merda é amor...

Em outro desses encontros noturnos o assunto era a reforma ortográfica, decretada pelo governo federal, e o vocabulário que a ela se integraria, organizado pela Academia Brasileira de Letras.

Celso Pinheiro confessava não haver aprendido as regras em vigor, por isso iria continuar escrevendo como até então e quem quisesse que fosse recolocando os acentos, os tremas, os hífens e outras coisas exigidas pela reforma.

Júlio Vieira faz-lhe ver que a coisa não é assim tão difícil, bastando notar, por exemplo, que toda palavra proparoxítona leva acento na sílaba tônica, agudo ou circunflexo, conforme o caráter aberto ou fechado da vogal: cálculo, pródigo, trêfego, cômodo. Prossegue explicando que o acento agudo também se emprega para evitar o ditongo em certas palavras, como país, juízo, saúde, viúvo.

Meio desinteressado, o poeta da "Flor Incógnita" interrompe a aula e se levanta para sair. Fala:

- Vou guardar minh'alma. Hoje tenho a cabeça tão doída.

Júlio logo corrige:

- A última palavra aí não tem acento...



em Notas fora da pauta 
Teresina: Projeto Petrônio Portela, 1988

Um comentário:

FazerPiauí disse...

Rodrigo, parabéns pelo blog!
um texto melhor que o outro.
Mas esse...juro que lembrei de minha infância quando meu pai mostrava suas fotos pelos lugares de Theresina, e uma dessas estava no café avenida.
ótimo lugar!
abraço!

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