A LOUCA DA INFÂNCIA




O vestido rasgado, o corpo sujo, o rosto deformado por corte e pancadas, as mãos calosas cravadas nos cabelos desgrenhados na constante caça aos piolhos: Ratazana nas ruas da infância. Quando ela passava, catando restos de comida dos lixos, os meninos a cercávamos e, atirando pedras na louca, gritávamos:

- Ratazana!, tira!, tira!

Ratazana levantava a veste surrada, um sexo cabeludíssimo surgia, os meninos em cio vibrávamos, os paus latejando entre as pernas.

Zezinho perguntava: pé-de-pau? O coro respondia: tamarindo. Era a senha. Então André, o filho do bancário, ia a casa, trazia uma lata de doce. Chamariz infalível. Ratazana, morta de fome, não pestanejava, seguia André, ou melhor, o doce. Pouco depois, achávamo-nos sob o pé-de-tamarindo.

Começava a algazarra. Cada um queria ir primeiro. A maior briga. Todo mundo seco. Mas André botava moral, o doce é meu, dizia, arrogante, quem come ela primeiro sou eu. Ratazana, os olhos grudados na lata de doce, deitava-se, abria mecanicamente a pernas, André a cobria, depois outro, e outro, e outro...

No fim, Ratazana, exausta, arrasada, curvava-se sobre a lala de doce, comia avidamente. Depois, o estômago feliz, paspalhava-se a olhar pra gente com uns olhinhos tão meigos, com um sorriso tão cativante, que eu voltava pra casa com uma dor no peito, um ódio de mim, dos homens, do mundo.

Um dia chegou-nos a notícia: Ratazana morrera. Atropelamento. Nunca vi a molecada tão triste. Onde despejar o esperma acumulado? Tinha a masturbação, tinha o Morro do Querosene... mas não eram a mesma coisa.

Continuamos a frequentar o tamarineiro. Como um ritual em homenagem à mendiga, cavávamos buracos debaixo da árvore, metíamos o pau dentro, gozávamos, e fornicávamos, fornicávamos...

Hoje, passado tanto tempo, lembro-me de tudo com extrema nitidez. E me revolto ante essa minha primeira lição de miséria.



Airton Sampaio
em Painel de sombras 
Teresina: Edições Piçarra, 1980

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