O GARRAFEIRO




o garrafeiro era apenas um homem
que sobrava das ruas
também sujo de terra e esquecido
como as garrafas e cacos no quintal

suas mãos de cuidado
tangiam aranhas, lagartixas
e vez por outra
um escorpião afiado

depois arrumava as garrafas
lado a lado
âmbares, azuis, verdes, transparentes,
num arco-íris pobre

"essas são de vinho tinto"
dizia-me ele embriagado de vazios
e as de fundo côncavo serviam
para pescar piabas no Poti

o mundo é duro e frágil, eu aprendia
mas nele lições pequenas eternizam
piabas prateadas nas garrafas
como rútilos presos nos cristais



Graça Vilhena
em TERESINA: Um Olhar Poético
Teresina: FCMC, 2010
Organização de Salgado Maranhão

Um comentário:

End Fernandes disse...

Muito bom!

Gostei desse poema e dos seus detalhes. =]
Muitas vezes a sociedade pode olhar e achar que ele é apenas mais um alcoolatra, mas quem tem sensibilidade consegue ver muito mais além...

End Fernandes

acompanhe por e-mail